Penso, logo insisto
Esta postagem foi publicada em 9 de janeiro de 2021 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Apenas alimentação, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Cristão vegetariano é um grande contrassenso. Peixe, o alimento oficial do cristianismo (e um de seus símbolos mais caros) é um animal.

APENAS ALIMENTAÇÃO

Você, provavelmente, nunca ouviu o nome Antônio Emílio Leite Couto. Ou, se conhece alguém com essa identificação, penso que não estaremos falando de quem serve de modelo a este comentário. Eu, confesso, também jamais ouvira. É um nome com feições comuns para os falantes da língua portuguesa e – é quase certo – identifica mais de uma pessoa ou no Brasil ou em Portugal ou, ainda, num dos outros países que têm como símbolo máximo do idioma o poeta lusitano Luiz Vaz de Camões. Agora, quando eu falar o pseudônimo literário deste Antônio Emílio, se você for um pouco mais ligado às coisas da literatura, mesmo por informação jornalística ou por frases que circulam pela internete, o tratará quase como um velho conhecido.

            Tenho, impressa em uma toalha na minha mesa de refeições, talvez sua frase mais famosa: Cozinhar é um modo de amar os outros. Estou falando do escritor moçambicano Mia Couto e a frase faz parte de um conto, “A avó, a cidade e o semáforo”. Não é, necessariamente, sua melhor frase, pois seria, aliás, tarefa difícil e insana escolher dentre os textos de um escritor talentoso. Mas o destaque, esse, sim, foi-lhe dado pela publicidade em torno de sua obra. E, aqui vai uma conclusão muito pessoal: pelo grande destaque conseguido pelos master chefs da vida. Você já notou, não é?, a grande quantidade de produção televisiva, cujo tema principal é a cozinha. Se, há alguns anos, os grandes cozinheiros eram mais raramente mencionados, hoje a coisa mudou. E quando falo nos “grandes” profissionais de tempos atrás, conservo-os em seus tronos conquistados merecidamente. Mas, me parece, há muito mais gente procurando uma vaguinha nesses tronos e tantos conseguindo uma beirinha no assento. Faça um levantamento particular e veja como existem cozinheiros amadores (bons amadores, saliento) na disputa. Até eu, por uma questão de aproveitar os conhecimentos de minha esposa, e auxiliá-la nas tarefas domésticas (os ensinamentos da mamãe nunca foram esquecidos) tenho me arriscado nesse terreno minado. Qualquer passo em falso e pode haver uma explosão. Para confirmar, basta assistir a qualquer xou culinário. Mesmo gente qualificada comete suas gafes.

            E é onde quero chegar! Continuo usando as referências de Mia Couto. No mesmo conto, antes da célebre frase citada acima, há o seguinte trecho: Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Esta parte não ganhou o destaque também merecido. 

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]