
Há histórias de vida por trás das estatísticas
Você se lembra da plataforma No Epicentro? Ela simula o que aconteceria caso todos os mortos por Covid-19 no Brasil fossem nossos vizinhos.
Falei da ferramenta pela primeira vez na minha coluna de agosto passado. À época, o Brasil se aproximava de 100 mil mortes em decorrência do coronavírus, mas muita gente menosprezava esse número. A visualização das estatísticas no mapa talvez fosse uma maneira de causar um impacto mais forte.
No mês seguinte à publicação do texto, a doença pandêmica se tornou a maior causa de óbitos no país em um único ano. Nada vitimava tanto quanto Covid-19 – nem infarto, nem acidente de trânsito, muito menos as gripes comuns.
A quantidade de casos continuou a crescer. Hoje são mais de 228 mil brasileiros que perderam a vida depois de contraírem o SARS-Cov-2.
É mais que a população inteira do Vale do Paranhana. Se o contágio ocorresse somente em nossa região, seria como se todos nós deixássemos de existir. Taquara, Parobé, Igrejinha, Três Coroas, Rolante e Riozinho: seis comunidades completamente apagadas. Já imaginou?
Porém simulações, comparações e estatísticas parecem nos sensibilizar pouco. Nem mesmo as reportagens mostrando UTIs lotadas e sem oxigênio para os pacientes surtem efeito. Essas histórias de vida soam tão distantes de nós! Até que a doença acontece conosco ou com pessoas próximas.
Minha tia Lúcia faleceu na última terça-feira por complicações da Covid-19. Seus pulmões ficaram demasiado comprometidos após quase um mês de internação hospitalar.
Apesar dos 70 anos recém-completados, era uma mulher saudável. Não tinha comorbidades, não bebia, não fumava. Foi uma das mais ativas da família Tourinho. Trabalhou por 45 anos como servidora no setor administrativo da Universidade Federal da Bahia, sempre desempenhando suas funções com zelo, competência e responsabilidade. E essas não são meras palavras elogiosas de um sobrinho, pois a própria instituição destacou tais qualidades em nota de pesar.
Para mim, ela era simplesmente a tia que gostava de conversar ao telefone, que recebia a todos com muito carinho em sua casa e que preparava deliciosas comidas baianas. Siri, moqueca, feijão-fradinho no dendê: qualquer almoço feito por suas mãos virava banquete.
Agora sua trajetória foi interrompida. Ela não verá os netos crescerem nem poderá passar as férias aqui no Rio Grande do Sul. Ficam a saudade e as boas lembranças.
Há quem acredite que nós cumprimos uma missão na Terra e que a hora de cada um chega quando tem de ser. Com todo respeito às crenças alheias, preciso discordar. Tia Lúcia não faleceu porque “todo mundo morre um dia, fazer o quê?”. Ela foi mais uma vítima de uma pandemia descontrolada, agravada por governantes negligentes e por cidadãos que debocham dos protocolos sanitários. Parece que as tais lições da quarentena não serviram tanto assim.
Mas não estou aqui para apontar culpados. Decidi expor uma situação pessoal apenas para alertar que o perigo continua. As vacinas trouxeram esperança, só que ainda temos um longo caminho até retomarmos a normalidade. Por ora, inexiste clima para festas, aglomerações ou desconfiança da ciência.
Fique bem. Cuide-se. Cuide dos seus. É doloroso demais ter uma história de vida reduzida a estatística.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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