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Esta postagem foi publicada em 19 de fevereiro de 2021 e está arquivada em Haiml & etc..

Esperança, por Luiz Haiml

ESPERANÇA

Esperança. Força e beleza resplandecem em tal palavra. Parece torneada em letra especial em uma bela grade de ferro.

Ano passado participei de um concurso literário cuja proposta era “esperança dentro da pandemia”. Poderia haver algum resquício de esperança dentro da situação horrível que o Covid nos trouxe? Esperança dentro de um evento que tornou o mundo uma imensa sepultura e virou a existência humana de cabeça para baixo?

Por coincidência eu estava recém trabalhando numa história sobre um cara que tinha tido um sonho – desses que temos quando dormimos. Tal sonho ia mudar, ou não, o futuro do personagem. O sonho usado na ficção era um que eu pessoalmente tive, adaptei-o ao tema pedido pela antologia. A história, “Onírica”, vingou e saiu em meio a poemas, crônicas e outros contos que em comum buscavam achar alguma luz em meio à escuridão, buscavam afastar a tristeza e o pessimismo trazidos pelo vírus.

Textos todos muito bem escritos, e, como as pessoas estão precisando de leituras positivas, a antologia rendeu, foi um sucesso. Surgiu a proposta de um segundo volume. Nós, autores da primeira edição, fomos convidados a escrever novamente, mas, também, sair em busca de novas vozes para aumentar a esperança entre as pessoas.

No entanto, quando essa nova proposta foi oficialmente lançada, eu já estava pessoalmente envolvido com o vírus, e não foi algo nada bom. Na verdade, não tem sido uma experiência nada boa. Confesso que tentei achar uma fresta nesse caos físico, psicológico e mental que tomou conta de mim, mas não consegui. A palavra esperança desmanchara-se, perdera a nitidez, torna-se papel, frágil papel, fragmentara-se, deixara, para mim, de ser eterna, virou etérea.

Afinal, como ter esperança em meio a tudo o que passei, e ainda passo, por causa dele? Tentamos fazer as coisas direito, e mesmo assim ele nos pega. Como ter esperança quando você sabe que ele mata, que ele volta, que pode deixar resquícios que nunca mais serão curados?

Como ter esperança quando tu sabes que teu velho pai passou os últimos dias em grande sofrimento, sem que ninguém pudesse visitá-lo? Quando toda uma vida de 94 anos se foi simplesmente, sem ter sido velada, em caixão fechado, direto à fria cova de cimento e pedra? E se for verdadeira a teoria de que a alma, quando sai do corpo, vê tudo o que lhe acontece antes de deixar este plano? Horrível, né. Para consolo fique com uma dessas: ou tudo acaba em definitivo, ou acordaremos de novo num despertar bíblico.

Esperança tem a natureza de que o homem se vá de uma vez da face do planeta, pois nós somos a ela o mal que a infesta. As flores continuam se abrindo, os pássaros continuam seu cantar, o sol se põe e retorna todos os dias sem preocupação, imunes à fome insaciável e impiedosa do câncer pandêmico. Mas até a natureza, que sobrevive impávida e indiferente ao Covid, precisa torcer para que um dia não lhe caia na cabeça um asteroide ou qualquer outra coisa cósmica que a consuma totalmente.  

Como ter esperança quando, com a toda inteligência nos dada pelo Criador, ainda continuamos como uma espécie sem noção, que sabendo estarmos todos nos mesmo “titanic”, não se une para evitar o afundamento do mesmo, e segue tentado viver como se conseguisse driblar tudo com pensamentos do tipo “sempre teremos o churrasquinho do fim de semana, então tá tudo bem”.

Então, enquanto eu esperava, na frente do hospital onde tive consulta e exames de revisão para os resquícios do meu Covid pessoal, o táxi que viria me buscar, vejo um homem atravessando a rua. Carrega juntinho de seu peito uma criança de não mais de um ano como se ela fosse a carga mais preciosa do mundo. Mas o que percebo ali não é só a preocupação de que o pequeno caia, naquele abraço há mais, bem mais, há todo o amor de um pai a transbordar pela cena.

De repente, apesar de tudo, o Ser Supremo me dá de volta a ponta do fio de Ariadne, e eu, eu dou a Ele uma chance, e em meio a tudo o que desabara ao meu redor, e dentro de mim, me determino, me predisponho,  a tomar o caminho da postura de Jó.

“Ninguém sabe ao certo o que existe lá fora, é por isso que continuamos procurando, muitos pela fé, outros com esperança”. Doctor Who

* Dedicado a meu pai, João F. Haiml, aos médicos, e a todo pessoal da saúde que lida diária e diretamente com o Covid.

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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