Cultura e Lazer

Solar Pina: família Biason investe em prédio histórico com intenção de criar “Rota Arquitetônica” em Taquara

Segundo Michele, serão gravados diversos vídeos, durante a reforma executada no Solar Pina, que serão publicados nas redes sociais da casa

Uma das famílias mais conhecidas de Taquara, a Biason, tem investido na restauração de uma residência batizada como Solar Pina, com o propósito ambicioso – como adjetivou a arquiteta Michele Biason – de criar uma espécie de “Rota” na rua que é ‘guardiã’ de grande parte da história do município e da própria região.

A construção, que está localizada na subida da rua Edmundo Saft, ao lado do Palácio Municipal Coronel Diniz Martins Rangel (Prefeitura), está passando por reformas estruturais que vêm trazendo à tona descobertas sobre a história local e a arquitetura dos séculos XIX e XX.

Solar Pina

Antigamente conhecido como ‘Casarão do seu Astrogildo’ – pois foi o morador que residiu ali por mais tempo e de uma família muito conhecida na cidade – a construção, inicialmente datada de 1909, recebeu o nome de Solar Pina, em homenagem à avó de um dos proprietários.

No local, houve uma série de moradores, como, por exemplo, diversos médicos que residiram ali pela proximidade com o extinto Hospital Faiock e, também, ao Hospital Caridade – atualmente Bom Jesus.

O nome da residência, batizada como Solar Pina, não está vinculado a nenhuma pessoa que tivesse sido moradora do local. A ideia surgiu da vontade de homenagear as mulheres que fazem parte da família Biason e veio de uma das avós de Valmor.

“Na realidade, o Pina vem do nome da minha avó, que se chamava Josephina Biason. A família e amigos costumavam chamá-la pelo apelido de Pina”, destacou o proprietário.

Segundo Valmor, sua avó era muito conhecida em sua época e região, porque ela foi a responsável por trazer muitas vidas ao mundo. Ela era a ‘parteira’ da sua localidade. “Algumas gerações nasceram pelas mãos dela, inclusive eu. Portanto, essa era a função dela, muito importante para a comunidade onde eles moravam, na Boa Esperança. Então, a gente achou que seria uma maneira de homenagear as mulheres e especialmente ela”, explica Valmor.

Compra do prédio

De acordo com Michele Biason, o prédio foi adquirido pela família no ano de 2007, mas, a única certeza que se tinha é de que a construção seria recuperada, em algum momento. “Nunca tivemos a intenção de pô-lo abaixo e, também, nunca moramos no local”, destaca a proprietária.

Segundo Valmor Biason, quando foi adquirido, o local não proporcionava condições de moradia, a construção já estava decaída e o telhado comprometido e, para habitar a residência, seria necessária uma grande reforma. “Como não tínhamos a intenção de morar ali, fomos deixando o prédio como estava. Porém, em 2020, pessoas começaram a reclamar sobre usuários de drogas e em situação de rua, que teriam invadido o local e estariam pondo em risco a vizinhança. Nesse momento, sentimos que devíamos fazer alguma coisa”, detalha Michele.

A família pensou, inicialmente, em remover o telhado, mas quando foram efetuar a retirada constataram que era o telhado que segurava as paredes. Ao se dar conta de que, para remover apenas esta parte da construção teriam que demolir todo o local, notaram que “não seria possível fazer uma reforma ‘rapidinha’, teria que ser algo mais complexo”.

Descobertas durante restauro

Diante da constatação, de que não seria possível realizar apenas uma simples reforma, a família começou a trabalhar em um projeto para fazer a recuperação total da casa. Desde junho do ano passado, o serviço de descascamento das paredes vem sendo realizado e, a partir daí, as surpresas começaram a acontecer.

“Com o início do trabalho descobrimos alguns arcos incríveis no subsolo, que estavam escondidos debaixo de uma camada de reboco e levam para o exterior da casa; um plano de aterro que não existia originalmente; então, é muito demorada a reforma porque são descobertas e a gente quer preservar o máximo possível”, destaca, empolgada, a arquiteta.

Conforme Michele e Valmor, quando a casa foi adquirida, já não possuía seus moldes originais. O local havia sofrido muitas intervenções, através de reformas realizadas ao longo da história. “Nós ainda não sabemos o que vai ser ali. A gente só está tratando de recuperar o edifício e adaptar para as necessidades atuais, para que possa atender a qualquer tipo de função”, afirma Michele.

Durante o desenrolar da construção, através dos trabalhos realizados no interior da residência, novas surpresas foram surgindo. Como foi o caso de uma única parede de estuque encontrada há poucos dias. Os proprietários da obra imaginam que as divisórias do interior da casa eram todas feitas desse material. “O estuque se trata de uma parede muito fina, erguida com ripas de madeira intercalada com barro e fibra vegetal ou pelo de animal – para ter liga – e a parede fica com, no máximo, seis ou sete centímetros de espessura e muito leve. Então, para não fazer muito peso no subsolo faziam-se essas paredes mais leves”, explica Michele. A parede encontrada foi removida, com a ajuda de um guindaste, para outro local na casa onde ficará em um local de destaque com uma placa contendo um texto explicativo sobre sua história, para preservar e mostrar as técnicas construtivas empregadas naquela época.

No prédio, também estão sendo encontradas várias outras técnicas de construção como as argamassas, os tijolos, a forma que era feita a fundação da obra e, tudo isso, ficará aparente para que os futuros frequentadores possam entender um pouco da história contida no local. A data, citada como possível inauguração da residência é o ano de 1909. Os proprietários tratam como ‘possível’ porque, durante as pesquisas realizadas, nenhum documento que comprovasse o ano exato de sua construção foi encontrado.

“Durante as buscas, encontramos na fachada do Solar a data de 1909. Naquela época, normalmente se colocavam as datas de inauguração do prédio no local. Porém, em leituras e pesquisas que fizemos, não conseguimos identificar se essa data é exatamente o momento em que a casa começou a ser construída ou mesmo se foi o momento em que o local se tornou efetivamente uma residência. Para nós, pelo menos por enquanto, segue sendo 1909, mas vamos seguir as pesquisas para descobrir a exata data do início da construção”, relata Valmor.

Pesquisa

Conforme Michele, a história da casa se confunde com o evento de inauguração da implementação das estradas de ferro, que passavam pela região, ocorrida no ano de 1903.  À época, o coronel João Correa venceu uma concessão para a construção de uma estrada de ferro, vinda do município de São Leopoldo até Taquara, e que passava em frente ao Solar Pina, na atual rua Edmundo Saft.

“De 1903 a 1922, a ampliação da construção das vias férreas foi realizada do trecho Taquara/Canela. Então, muitas dessas casas que estão no entorno da ferrovia, foram construídas nessa época, como por exemplo, o Palácio Municipal Coronel Diniz Martins Rangel, que atualmente abriga a Prefeitura, e o prédio da Casa Vidal, que também está sendo restaurado. Com isso, a história dessas construções se confunde”, detalha Michele.

Além disso, o prédio que abrigava a Estação Ferroviária, o local onde existia o Hospital Faiock, o edifício onde está localizada a Câmara da Indústria Comércio Serviços do Vale Paranhana (Cics-VP) – tombado em 1986 pelo Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Rio Grande do Sul/IPHAE – e a própria subida da rua Edmundo Saft, são ‘peças’ importantes da história do município de Taquara, que possuem traçados do período neoclássico com inserções do período eclético, segundo a arquiteta.

Em relação aos antigos moradores da casa, os proprietários realizaram uma análise baseada em um livro escrito pela genealogista taquarense Isete Barth Koliver. A estudiosa realizou um trabalho de pesquisa nos lotes centrais do município. Porém, por ser uma área grande de terra, que foi sendo dividida aos poucos, não se chegou ao conhecimento de todos os moradores dessas residências.

“Através dessa ajuda que tivemos da Ivete, conseguimos identificar algumas das pessoas importantes que residiram na casa. Por exemplo, coronel Janguta (João Manoel Corrêa), filho do coronel João Corrêa, que implantou as estradas de ferro na região; o senhor Astrogildo, importante comerciante; o médico Doutor Luis Carniel, dentre outros”, ressaltou Michele.

Projeto ambicioso

As obras de restauração do Solar Pina, que começaram em junho de 2020, estão sendo realizadas, em sua totalidade, com recursos próprios. Conforme Michele, uma empresa para a execução da obra foi criada, mas, apesar de diversos funcionários estarem atuando no local, é um trabalho que precisa ser muito minucioso, para que se recupere o máximo da história contida na casa.

Os proprietários afirmaram que a construção está quase pronta e que buscar ajuda de empresas ou investidores não é uma opção para a finalização da obra. “A Michele é a arquiteta, que é a responsável pela pesquisa e detalhes da obra, eu sou advogado e contador, temos uma empresa ambiental que cuida dessa parte. Então, isso facilita pra gente. Mas, mesmo assim, são recursos próprios e por isso tem demorado um pouco mais, mas a gente tem buscado preservar tudo aquilo que é possível, para deixar o prédio o mais próximo do que era quando foi construído. É um privilégio poder fazer esse tipo de trabalho”, destaca Valmor.

A ideia dos proprietários do Solar Pina é de, junto com a administração municipal, implantar um projeto de turismo arquitetônico, visto que Taquara, e especialmente o local em que se encontra a residência, tem potencial com prédios, ruas e até mesmo canteiros históricos datados de 1920.

O local se trata de um perímetro de preservação e o propósito ambicioso, como adjetivou Michele, passa por restaurar toda a rua Edmundo Saft e conectá-la novamente, de uma forma mais estruturada, à ERS-020, estabelecendo ligação com a gastronomia e criando uma espécie de ‘Rota Arquitetônica’. A previsão de término total da obra da casa é para o final de abril deste ano.

Acompanhe os passos da restauração através da página do Facebook Solar Pina e Instagram @solarpina.

Confira abaixo fotos do local histórico: