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Esta postagem foi publicada em 28 de março de 2021 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Velhas Amizades, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Inveja: sentimento só notado pelas supostas vítimas e suas “migas” no Facebook (vá lá, alguns “migos”).

VELHAS AMIZADES

Por uma dessas contingências da vida, precisei repensar em algumas velhas amizades. Não é nada de renegar amigos, como pode parecer à primeira vista. Mas, sim, de me reposicionar em relação à permanência deles junto a mim. Continuo sem explicar e me afundando cada vez mais no quesito honradez e confiabilidade? Deixa eu ver se consigo dar uma justificativa plausível para minha atitude.

Estou me desfazendo de muitos dos meus livros. Lamentavelmente, eles estão perdendo sua vez para alguns eventos sobre os quais sou incapaz de exercer controle. E esses eventos vão desde uma posição histórico-filosófica até – muito importante – rinite alérgica, facilitada pelo acúmulo de poeira sobre meus amiguinhos. Este último item nós, adoradores de livros, sabemos ser onipresente em qualquer coleção livreira, não importa a quantidade de exemplares constante da mesma. É um fator tão destacável que as grandes bibliotecas do mundo têm sistemas de refrigeração e combate ao mofo. Óbvio, as grandes! Como, mais óbvio ainda, a minha é, somente, um pequeno amontoado, por isso mesmo, não consigo manter-me longe dos malditos poeira e mofo. Por isto, a redução. 

Mas quero me deter um pouco mais no aspecto histórico-filosófico dos livros. Por mais que queiramos olhá-los como simples objetos feitos de folhas de papel impressas e numeradas contidas por uma cobertura mais resistente chamada capa, sabemos que é muito mais. Tornou-se, com o tempo, um objeto digno de adorações. O objeto, em si, ganhou um valor totêmico. É como se ele representasse uma entidade supranormal à qual devemos adoração e respeito. Eis a razão da existência de um milionário comércio de obras raras, disputado por colecionadores. Pense bem! Depois de um determinado tempo, deixa de valer a sua natureza e passa a valer, apenas, a sua data de impressão. Porém, o fundamental de um livro é o tema de seu discurso. Capas e páginas são tão somente a mídia da mensagem. E a informática deixou isso bem patente. Sei, é difícil aceitar. Entretanto, cada vez mais, “livro” é nome genérico para um texto com determinadas características, guardado num arquivo eletrônico. O meu celular tem 70 livros arquivados. Posso acessá-los a todo momento, de onde eu quiser e fazer a pesquisa que bem entender sobre eles. Sem esbanjar espaço na minha casa e sem espirros de alergia.

Na verdade, conservei comigo alguns livros old fashion way. Não consegui ser tão cruel a ponto dar-lhes adeus de maneira definitiva. Mas isso vai acontecer, definitivamente, em toda a humanidade.

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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