
Crendices mascaradas de ciência
Imagine que você derramou água fervendo sobre o corpo ou esbarrou num forno quente. Qual seria a maneira correta de tratar a queimadura? Talvez alguém lhe sugira aplicar pasta de dente no local.
Nunca entendi essa solução. Se a pele já está sensível, minha última reação seria espalhar um creme abrasivo e ardido sobre ela! Ainda mais que se trata de um produto feito para limpar a boca, não para regenerar machucados.
Em tempo: os dermatologistas são unânimes em dizer que pasta de dente não serve para aliviar queimadura. Ela pode inclusive piorar o quadro, causando inflamação e alergia. Mesmo assim, muitas pessoas acreditam no poder restaurativo do dentifrício, em vez de recorrer à certeira água gelada.
De certo modo, entendo essa atitude. Séculos de tentativas e erros resultaram numa preciosa sabedoria popular. Há receitas caseiras infalíveis, com a vantagem de serem práticas e baratas. Quando eu editava um site de bem-estar, sempre me surpreendia com os 1.001 usos do bicarbonato de sódio, especialmente na limpeza doméstica.
Porém, a despeito desse conhecimento empírico, não podemos desprezar a evolução da medicina. Hoje temos uma visão muito mais aprofundada do que funciona para nosso corpo, pois a ciência entende, num nível microscópico, como as substâncias agem no organismo.
Só que essa compreensão é um processo lento, com direito a interpretações equivocadas pelo caminho. Por exemplo, você sabia que vitamina C não necessariamente previne resfriados? Pois é.
O consumo do nutriente era defendido desde os anos 1970 pelo químico Linus Pauling, ganhador de dois prêmios Nobel. Ele mesmo chegou a ingerir 18 gramas de vitamina C por dia, confiando que assim conseguiria se proteger de gripe, câncer e doenças cardiovasculares.
Não só o cientista morreu de câncer de próstata, como sua teoria foi desacreditada. Em 2013, uma metanálise comparou 29 estudos sobre o tema, produzidos ao longo das últimas décadas. A conclusão foi que, estatisticamente, administrar vitamina C não surte efeito sobre a incidência de gripes e resfriados na população.
Ocorre que a gente adora um método rápido para afastar os problemas, né? Se o cara famoso disse que uma pastilha efervescente tem êxito, quem somos nós para contrariar? Mais fácil garantir a dose diária de Cebion que aguardar os resultados dos testes clínicos.
Foi assim que, nos últimos 50 anos, o ácido ascórbico se tornou um dos melhores remédios para nariz entupido, assim como a pasta de dente se tornou eficaz contra queimadura. Uma mera hipótese virou verdade absoluta no imaginário popular, antes mesmo que investigações mais rigorosas confirmassem a informação.
Hoje a informação está refutada. Mas tem gente que ainda credita sua saúde de ferro apenas à vitamina C. E tem quem passe creme dental na pele chamuscada.
Situação semelhante vem acontecendo em meio à pandemia de Covid-19. Na ânsia por encontrar uma panaceia contra o coronavírus, diversos medicamentos foram testados. Ao primeiro sinal de uma suposta eficácia, alguns desses fármacos eram consagrados como a solução milagrosa que queríamos.
No entanto, as pesquisas avançaram e desbancaram as esperanças iniciais. Não existe, até o momento, um único remédio comprovadamente eficaz para evitar covid. Todos se mostraram inúteis na prevenção, com o agravante de serem tóxicos se consumidos em dose elevada.
Tarde demais. Vermífugos, suplementos vitamínicos e afins vêm sendo vendidos a rodo nas farmácias. Governantes em todas as esferas torram dinheiro público para adquirir e distribuir coquetéis dessas medicações. Então, o povo se ilude com a possibilidade de tomar uma pílula e impedir o contágio.
Infelizmente, nem tudo na vida é tão simples quanto limpar pia com bicarbonato de sódio. Precisamos parar de reproduzir crendices mascaradas de ciência.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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