Penso, logo insisto
Esta postagem foi publicada em 26 de abril de 2021 e está arquivada em Penso, logo insisto.

O Rei Agoniza, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Esposa e mãe carinhosa, perdoa todas as falhas do filho, mas tenta corrigir o marido, que foi tão mal educado pela sogra, aquela megera!

O REI AGONIZA

Encontro a antiga colega, (“antiga” porque já se passaram sete anos do nosso trabalho na mesma escola; em idade ela é bem moça). Foi no supermercado, fim de tarde! Eu, constrangido, mas satisfeito, olhava para todos os lados, esperando não sermos notados. Começamos a fazer uma coisa que não se deve fazer em público: conversamos! Vocês entendem, a proximidade, a aglomeração, essas coisas proibidas atualmente. Dentre as lembranças, rememorei a festa de amigo secreto em que eu lhe dera um par de brincos, pois notara seu gosto pelos adereços. Numa das coincidências, tratadas por mim na última crônica (de novo, a coincidência), ela também era a minha “secreta”. O sorteio nos tornara recíprocos na brincadeira. Seu presente foi um livro de Luís Fernando Veríssimo, escritor apreciado por mim. E esse, o objeto livro, genericamente falando, depois das lembranças, foi o motivo principal de nossa conversa. Contei-lhe que estava fazendo uma atualização, digamos, sanitária da minha pequena biblioteca, já que, atualmente, a mídia impressa (é, o livro é!) está perdendo seu espaço para a eletrônica. E quem desaparece com isto? Claro, a sua característica básica, a própria mídia: o papel.

Minha interlocutora falou musicalmente: “não consigo me desligar do livro sólido”. Imaginem! Eu também não, mas, para permanecer ativo no mercado editorial, estou numa dolorida readaptação. A informática pôs a nu uma verdade verdadeira – se me perdoam o pleonasmo – por isso mesmo, incontestável. “Livro”, agora, por metonímia, voltou a ser um grupo de ideias escritas, com determinadas características, formando um conjunto único. Não mais, apenas, o “sólido” de folhas e capas de… papel. Embora o consumo de papel ainda seja grande por conta do emprego indiscriminado de folhas nos escritórios, devido à facilidade de uso das impressoras, a tendência geral é de diminuição nas próximas décadas. Menos livros, jornais, cheques, cartas, faturas, propagandas, listas de compras em supermercados. O celular – eletrônica pura – dá conta! Por “livro” voltamos ao que se dizia das obras de Sócrates, Platão et caterva. Sempre importou o texto, não a mídia. Antes eram pedra, tabuleta de barro, rolo de papiro, pele de carneiro, todos de difícil operacionalidade. O papel se tornou rei de um império gigante com a ajuda da prensa de Gutenberg. Com ele como mídia o mundo deu um salto no desenvolvimento.

Claro, essa união ainda vai durar mais algum tempo. Mas não se iludam: o rei entrou em agonia.

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]