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Da notícia de morte ao bom humor diário: advogado Cassiano Ebert relata enfrentamento da Covid-19

Os detalhes sobre o momento vivido por Cassiano, desde a internação até a recuperação bem humorada
Fotos: Arquivo familiar

As internações hospitalares cresceram absurdamente em virtude de contaminações pela Covid-19 (novo coronavírus). Pessoas que aparentemente estavam saudáveis – sendo infectadas pelo vírus – em muitas situações, acabaram vendo sua vida ficar “no fio da navalha” devido à gravidade da doença. Desta forma, o advogado e assessor jurídico do município de Taquara, Cassiano Vladimir Ebert, de 40 anos, enfrentou a infecção durante os 28 dias em que esteve internado, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Unimed, em Novo Hamburgo e, posteriormente, no Hospital de Sapiranga.

Em uma entrevista especial à reportagem da Rádio Taquara (RdTaq), Ebert contou como foi passar por cada momento dessa situação inesperada. Desde a descoberta da doença; o momento da internação; os 18 dias de UTI – sendo 13 deles intubado – no hospital; os sonhos de diálogos com uma família que veio a descobrir, posteriormente, que não existia; o apoio dos familiares; a falsa notícia de sua morte; até o enfrentamento pós-doença, que encara com muito bom humor.

Vídeo de Cassiano esclarecendo o que lhe “ressuscitou”.

Confira a entrevista completa abaixo:

RdTaq – Como você enfrentou a descoberta da covid?

Ebert – Soube em um domingo, quando começaram os sintomas de febre e um pouco de falta de ar. Na quarta-feira, após muita insistência da minha noiva, procurei atendimento médico. Foi o que salvou a minha vida, pois já na sexta-feira à noite tive de ser intubado. Tive um suporte médico e dos profissionais de saúde muito bom. Sabia que estava em boas mãos, embora tenha ficado evidentemente preocupado com a piora do quadro clínico.

RdTaq – Em que dia você foi internado no hospital e quanto tempo você permaneceu?

Ebert – Fui internado em 26 de fevereiro na UTI, dia em que passei pelo procedimento de intubação para o uso de ventilação mecânica. Isso se deu após três dias na enfermaria, tempo em que fiquei utilizando máscara de oxigênio. Ao total, fiquei 28 dias internado, sendo 18 dias na UTI, onde estive 13 dias intubado.

RdTaq – Conte-nos sobre esse momento em que esteve internado? Você lembra-se de alguma coisa?

Ebert – Recordo de muito pouca coisa, apenas alguns poucos flashes de memória. Sonhei muito na UTI, período em que estive sob efeito de sedativos. Em alguns dos sonhos aparecia uma família, composta por mãe e filha, ambas técnicas de enfermagem, e o esposo/pai, que realizava a limpeza do quarto. Eles tratavam de me acalmar e dizer que tudo ficaria bem. Em contato recente com o hospital onde fiquei, soube que estas pessoas não existem, ao menos neste plano espiritual.

RdTaq – Como foi o momento em que você ganhou alta do hospital e pode sair do local com vida?

Ebert – Foi um momento muito esperado e, como não poderia deixar de ser, mágico e comovente. Os profissionais de saúde fizeram uma linda homenagem, com balões e salva de palmas. São verdadeiros heróis de jaleco.

Cassiano, ao lado da noiva, em momento de recuperação.

RdTaq – Após chegar em sua residência e descobrir que havia sido declarado morto, que reação você teve ao saber que, inclusive, a Prefeitura de Taquara havia divulgado uma nota e decretado luto oficial na cidade?

Houve uma divulgação de uma notícia falsa pela cidade, que tomou conta das redes sociais. Há mais de vinte anos exerço o meu trabalho junto ao público, então sou naturalmente conhecido na cidade, além daqueles que conhecem a minha família. Inevitavelmente, a consequência disso foi a disseminação da notícia muito rapidamente, pegando todos de surpresa, induzindo as pessoas de boa-fé ao engano. Até mesmo meus familiares foram enganados. Quando soube da nota da Prefeitura e a decretação de luto oficial, ao contrário do que se possa pensar, fiquei muito lisonjeado, pois apenas as pessoas queridas pela comunidade são agraciadas com tal honraria. Me sinto honrado, antes de qualquer coisa, com a certeza de que a humildade, a retidão e a gentileza devem sempre ser o norte da nossa vida.

RdTaq – Quem esteve junto durante o enfrentamento à essa situação que você gostaria de agradecer?

Ebert – Minha noiva (Raquel), meus pais (Delcídio e Rosa) e meu irmão e cunhada (Leandro e Alessandra), além dos demais familiares e inúmeros amigos (dentre eles, o também meu médico Dr. Eduardo Kunst, o Diogo Schnorr, o Tiago Schuler e o Ismael Weber). Não tenho como mencionar a integralidade dos envolvidos, pois fatalmente cometeria a gafe de esquecer alguém. Contudo, na pessoa destes citados eu agradeço a todos, que têm o meu carinho e admiração irrestrito. Também não posso esquecer de mencionar os Drs. Anderson e Daiana Araújo, que juntamente com o Dr. Matheus Wallauer, tomaram conta dos processos do escritório, enquanto estive hospitalizado. Também aos colegas da Prefeitura Municipal de Taquara segue o meu sincero agradecimento.

RdTaq – E agora, depois de passado esse pior momento do coronavírus, como se sente?

Ebert – Estou me recuperando bem, com muita fisioterapia e uso de alguns medicamentos. Tenho força de vontade e o apoio da minha noiva, amigos e familiares, o que me estimula a seguir em frente. O corpo e a mente têm de evoluir juntos neste momento, e isso está acontecendo com bastante vigor.

RdTaq – O que tem te motivado a encarar essa, podemos dizer, pós-morte, com tanto bom humor?

Costumo dizer que o bom humor é um remédio natural, gratuito e sem contra-indicação. A vida algumas vezes nos apresenta caminhos tortuosos, e enfrentar as dificuldades com leveza é uma questão de manter a salubridade mental, além de ser uma potente ferramenta para equalizar as emoções, mantendo o equilíbrio necessário para a tomada de importantes decisões no nosso dia a dia. Não há angústia que resista à pureza de um sorriso.

RdTaq – Qual mensagem fica para quem está passando por isso? E o que deve ser feito para se evitar essa situação?

Ebert – Vivemos um momento ímpar na história recente da humanidade. Mais do que nunca precisamos uns dos outros para superar esse desafio. Não adianta você tomar todos os cuidados e os demais não adotarem também essa postura. O vírus precisa de hospedeiros, e só depende de nós mesmos a quebra desse ciclo de transmissão, com o uso de máscara, álcool em gel e a não aglomeração, associado à vacinação. Vamos superar e vencer. Vai passar e voltaremos mais fortes, sem esquecer-se dos entes e amigos queridos que partiram cedo demais.

Toda essa história de luta pela vida nos faz refletir sobre os cuidados que devem ser tomados para evitar a contaminação por essa doença, que já dizimou mais de 410 mil vidas apenas no Brasil.