
O rei ainda está nu
Conta-se que, a certa altura de 1837, as sinfonias de Beethoven faziam bastante sucesso em Paris. O compositor alemão havia morrido dez anos antes, mas grande parte de sua música de câmara ainda estava sendo descoberta pelos franceses.
À vista disso, o pianista Franz Liszt organizou concertos na Cidade Luz nos quais apresentaria os trios para piano de Beethoven. Ele estaria acompanhado de um violinista e um violoncelista.
O espetáculo de 04 de fevereiro previa a execução de um dos trios de Beethoven na primeira parte. Em seguida, o conjunto traria uma obra contemporânea de outro compositor alemão praticamente desconhecido, chamado Johann Peter Pixis, por quem Liszt tinha certo apreço.
Só que houve uma mudança de plano no último minuto. Os músicos resolveram inverter a ordem que estava impressa no programa: primeiro tocariam a peça de Pixis e, somente então, a de Beethoven. (Algumas fontes afirmam que ocorreu um erro tipográfico nos folhetos, porém isso é indiferente para o desfecho da história.)
O resultado foi que público e crítica, guiando-se pelo roteiro impresso, aplaudiram calorosamente Pixis pensando que fosse Beethoven. Quando finalmente seria hora de admirar o trabalho do compositor famoso, a reação da plateia foi fria, pois todos supunham se tratar do novato Pixis.
Esse episódio é emblemático por uma série de razões. Primeiro, demonstra a característica humana de rotular o outro, muitas vezes sem critérios contundentes. Se o cara já é reconhecido pela grande massa, nós o enchemos de elogios, mesmo que ele não faça nada demais. Se é um iniciante buscando espaço, menosprezamos sua capacidade, ainda que o talento seja notório.
Também dá para perceber como pessoas tiram conclusões a partir do que não sabem ou fingem saber. Sinceramente, não sei o que é pior. Claro que opinião cada um tem a sua, mas há um diferença entre palpites vazios e argumentos baseados no estudo, na pesquisa e na verificação dos fatos.
O terceiro ponto, enfim, remete a um componente de vaidade. É muito difícil admitir nossa própria ignorância. E é mais complicado ainda levantar uma voz dissonante da maioria. Talvez, naquela noite do século XIX, algum espectador tenha percebido que a suposta obra de Beethoven não era grande coisa. Contudo, seria ele o único a cruzar os braços numa plateia em que todos aplaudiam efusivamente? Passaria ele atestado de mau apreciador da arte diante de seus pares, tão convictos da genialidade do que acabaram de ouvir?
No fim, pode ter acontecido algo similar ao conto ARoupa Nova do Rei, de Hans Christian Andersen (publicado também em 1837, vejam só!). Da mesma forma que o monarca estava nu e seus súditos fingiam observar os trajes que “só inteligentes enxergariam”, os sujeitosdo teatro parisiense preferiram pagar de eruditos a questionar as informações que receberam. Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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