
HÁ VIDA PARA ALÉM DA SALA DE AULA
Ou “Os segredos ocultos do professor e da professora!”
Sim, essa semana esta coluna servirá para lhes contar segredos sobre o que há por trás da “categoria magistério”. Do que se alimentam, onde vivem… Não, essa não é uma chamada do Globo Repórter, mas bem poderia ser. Porém, por mais que pareçamos seres extraordinários e extraordinárias, na verdade somos apenas seres humanos normais. Vivemos do mesmo modo que a imensa maioria da população e nos alimentamos do mesmo arroz e feijão.
Recentemente as escolas municipais da nossa região reabriram e retornamos às aulas de forma presencial (mesmo sabendo dos riscos dessa decisão para os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem). E aqui começam os segredos, aqueles que ninguém lhes diz, mas que eu lhes contarei.
As aulas voltaram de forma presencial, mas as aulas remotas continuam existindo. Nos municípios, cumprimos toda a carga horária em sala com alunos, tendo um turno na semana para “hora atividade”. Nesse turno (no caso dos contratos é meio turno, ou seja, duas horas), temos de realizar o planejamento das aulas das disciplinas, a elaboração das aulas remotas, correção das atividades presenciais e das atividades realizadas remotamente, preencher as planilhas de cada turma e cada disciplina, escrever pareceres sobre cada estudante… e por aí vai. É claro, é humanamente impossível realizar todas essas tarefas em duas ou quatro horas. Onde e quando realizamos essas tarefas “a mais”? Em casa, no nosso horário (que deveria ser) de descanso.
Ganhamos a mais por isso? NÃO! Obviamente não.
Sim, eu também me pergunto o que leva os prefeitos da região a não seguirem o modelo adotado pelo Estado do RS (que longe de ser perfeito, ao menos disfarça o nível de exploração a que fomos e estamos sendo submetidos) que compreende três horas com aulas presenciais e uma hora do turno para as demais atividades que precisamos realizar para fazer um bom trabalho e alcançar a demanda infindável de novidades burocráticas com as quais as Secretarias de Educação nos brindam a cada mês, quinzena e quando não semana.
Ganhamos a mais por isso? NÃO! Obviamente não.
Sim, eu também me pergunto se esquecem que (e aqui vai mais um segredo) também temos uma casa e uma vida fora da escola. Que além de sermos professores e professoras, somos mães, pais, filhos e filhas; temos outras responsabilidades do outro lado do muro. Não conheço outra profissão em que se leve trabalho para casa todos os dias e que não se receba a mais por essa demanda acrescida. Ouço críticas à nossa profissão e as ouço de quem sequer tem ideia da realidade de uma escola.
Talvez essa escrita possa ser considerada um desabafo, pois que seja. Que seja um desabafo de quem sabe que o desrespeito com que viemos sendo tratados e tratadas pelos governantes só mostra o quanto a educação lhes é cara (contém ironia).
Ou acreditam que nosso trabalho é muito mal feito, ou acreditam que não importa que mal feito seja. A educação, agora essencial, nunca foi prioridade e isso não me surpreende. Entretanto, o desrespeito vivenciado nos últimos tempos tem alcançado níveis recordes.
Sem mais delongas, quero apenas usar este espaço no dia de hoje para relembrar às autoridades que tomam as decisões relacionadas ao que nos compete enquanto professores e professoras, que, caso não saibam, esses trabalhadores e trabalhadoras que hoje vocês (mais do que antes) exploram desrespeitosamente, também “existem” fora da escola.
Sim, meus caros, há vida para além da sala de aula.
Por Ana Maria Baldo
Professora, de Taquara
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