
Após um júri que durou 17 horas, na madrugada de quarta-feira (02) saiu a sentença que condenou um casal, morador do interior de Parobé, por matar sua vizinha com 58 facadas durante um ritual de magia negra. O caso aconteceu em Santa Cristina do Pinhal, em março de 2017.

Eloisa Freitas de Moraes, de 56 anos, ficou cerca de uma semana desaparecida, até ser localizada enterrada em um matagal, no final de uma rua do bairro Jardim, em Parobé.
Acusados inicialmente de latrocínio contra a vítima (roubo seguido de morte), Adriana Moreira dos Santos, de 44 anos, e Daniel da Silva, de 26 anos, passaram a ser investigados por homicídio, após suposto ritual de feitiçaria, no qual teria tido a participação do pai de santo Kennedy dos Santos Pires, de 55 anos.
No dia 09 de março de 2017, Eloísa, que morava sozinha na Rua Paulo Osório de Mello, acordou com um barulho e, ao perceber que a porta dos fundos havia sido arrombada, um homem então começou a esfaqueá-la por várias vezes.
Segundo o delegado Rafael Sauthier, responsável pelas investigações, quando Daniel confessou o crime, dias depois, ele contou que fez tudo aquilo porque “viu a luz de Jesus, o poder do Pai”. Daniela, sua esposa na época, limpou o sangue e ajudou a carregar o corpo de Eloísa por três quilômetros para enterrá-lo em um matagal. O casal também teria roubado da casa da vítima diversos equipamentos eletrônicos e eletrodomésticos, num valor aproximado de R$ 3,5 mil.
O júri, que estava marcado para o dia 16 de março, devido a pandemia do coronoavírus foi transferido para a última terça-feira (1º), iniciando às 9h30min e sendo concluído às 2h30min de quarta-feira. A Polícia Civil concluiu que foi latrocínio (roubo seguido de morte), já que pertences da vítima foram encontrados no forro da residência do casal.
“A pedagoga, que já tinha trabalhado como professora, relatou que estava desempregada e que o companheiro ganhava muito pouco. Disse que, no auge do desespero e da fome, resolveram furtar objetos da vítima, que acabou sendo morta porque teria levantado e visto os invasores”, recorda o delegado Sauthier.

O pai de santo Kennedy, também investigado após ser incluído no processo pela promotora Daniela Fistarol, nunca foi mencionado como cúmplica pelo casal e também não foi encontrada nenhuma prova contra ele.
“Havia um folclore em torno dessa pessoa. Com a vítima ainda desaparecida, o comentário popular era que o corpo estava num caldeirão do pai de santo.”, explica o delegado.
Após incluir o pai de santo no processo, a promotora Daniela pediu a preventiva dele, que foi cumprida.
“O crime foi cometido por motivo torpe, uma vez que Daniel, Adriana e Kennedy mataram a vítima para atender um sacrifício que dizem ser religioso, ritual este que recebeu a vida de Eloísa como oferenda”, reforçou Daniela.
No júri, o novo promotor do caso, Daniel Ramos Gonçalves, manteve a acusação sobre o casal, mas pediu a absolvição do pai de santo por falta de provas, o que foi acatado pelos jurados.
Adriana Moreira dos Santos pegou 36 anos de cadeia, por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver, e seu então companheiro, Daniel da Silva, teve pena reduzida em três meses por ter confessado o crime e pegou 35 anos e nove meses. O casal voltou para o presídio e o pai de santo, que há quatro anos aguardava julgamento recolhido, recebeu alvará de soltura e saiu livre do fórum.
Pai de santo acusa promotora de intolerânca religiosa
Na quarta-feira, os defensores do pai de santo Kennedy, os advogados Viviane Dias Sodré, Rafael Ries Dorneles e Marcelo Von Saltiel de Andrade, divulgaram uma nota acusando a ex-promotora Daniela de intolerância religiosa.
“A mudança do responsável pela acusação foi extremamente importante, uma vez que a promotora anterior mais parecia estar perseguindo o réu por sua religião, ao invés de ater-se às provas principais que, inclusive, deixou de produzir. Portanto, entendemos que nesse julgamento foi feita justiça pela vítima e também pelo réu que ficou preso injustamente durante os quatro últimos anos, apesar de sempre ter negado a autoria dos fatos. Por fim, já tendo ocorrido o deslinde do feito, a Defesa informa que será publicado um livro com todos os detalhes do caso e comprovando que, efetivamente, o réu Kennedy estava preso em razão de intolerância religiosa e incompetência do órgão acusador.”, diz o comunicado dos advogados de Kennedy.
Por meio de nota do Ministério Público, a promotora Daniela Fistarol divulgou a seguinte manifestação.
“Os três acusados foram pronunciados por todas as acusações e o entendimento da promotora com atribuição no processo foi referendado nas instâncias judiciais superiores, inclusive o Superior Tribunal de Justiça, que manteve a prisão de Kennedy dos Santos Pires. É preciso ressaltar que em nenhum momento houve perseguição ao réu, mas, sim, análise técnica da prova colhida até então.”


