Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 4 de junho de 2021 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Faça as perguntas certas, por Rafael Tourinho

Faça as perguntas certas

Um professor da minha época de mestrado sempre alertava para a insuficiência das perguntas do tipo “sim ou não”. Elas são ótimas para revelar informações específicas num interrogatório. No entanto, dificilmente ajudam a descobrir algo relevante quando lidamos com os mistérios complexos do mundo.

Por exemplo, responda rápido: chocolate traz felicidade? Se você degusta a guloseima com frequência, é provável que diga sim. Aliás, talvez o próprio autor da enquete tivesse esse resultado em mente. “Eu me sinto bem depois da sobremesa, então, decerto, outros consumidores também ficarão felizes após umas bocadas”.

Ora, quem já tem as respostas antes de fazer as perguntas não precisa estudar nada. Por isso, o desafio dos pesquisadores consiste em desconfiar das próprias hipóteses. É preciso refutá-las ao máximo para deixar as suposições de lado. Assim se encontra os fatos tal como eles são, e não como gostaríamos que fossem. Vigilância metodológica, o nome dessa postura.

Um jeito adequado de obter dados melhores seria inverter a lógica da indagação: chocolate deixa você triste? Caso a maioria dos respondentes dissesse que sim, aí haveria um fenômeno mais inusitado a investigar. Afinal, o resultado não teria confirmado a hipótese. Seria necessário entender por quê.

Melhor ainda quando o questionário é flexível. “Como você se sente após comer chocolate?” pode ser um ótimo ponto de partida para revelações inesperadas. A pessoa fica livre para responder o que lhe pareça mais adequado, sem as limitações do “sim ou não”. Nesse cenário, quem sabe, surgissem comentários do tipo “feliz”, “satisfeito”, “enjoada”, “culpado pelas calorias a mais”, “cheia de energia”. Tabular esses dados seria bem trabalhoso, com certeza, mas traria pistas sobre uma realidade rica, cheia de nuances.

Ampliando ainda mais o leque de questões, pode ser que a preferência do público nem seja por chocolate. Vai ver a felicidade esteja, este tempo todo, no sorvete de pistache. Ou numa torta de maçã recém-saída do forno. Ou até mesmo num salgado de padaria, sem alterar tanto os níveis de glicose.

Quem se propõe a entender os mistérios do mundo não pode negar as evidências. De nada adianta alardear que o chocolate é a cura de todos os males se isso não for verdade, muito menos colar no carro um adesivo com os dizeres “estou com o chocolate e não abro”.

Diante das informações contradizendo a primeira ideia, só resta admitir que a felicidade está muito além do cacau. E seguir pesquisando para compreender o que ainda não se sabe. Inclusive, aqui vai uma máxima que os acadêmicos conhecem bem: as respostas sempre levam a novas perguntas, num caminho infinito de expansão do conhecimento. O segredo é fazer as perguntas certas. Questões fáceis, restritas a “sim” ou “não”, levam a entendimentos igualmente simples, mas superficiais na maioria das vezes. Já “como” e “porque”, embora exijam um bocado de esforço, rendem uma visão aprofundada dos fenômenos. O que você prefere?

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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