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Esta postagem foi publicada em 5 de julho de 2021 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Traduttore, traditore, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – O grande dilema humano: o corpo envelhece, mas a mente, conquanto adquira mais sabedoria, continua jovem e impudente.

TRADUTTORE, TRADITORE

O título deste comentário é um aforismo italiano do qual, é bem provável, já falei alguma vez nesta coluna. Por que estaria eu repetindo um tema, então? Na verdade, existem assuntos muito instigantes dos quais não podemos passar ao largo. Este é um!

Sobre o título já lhes dou a tradução: “tradutor, traidor”. Por qual razão seria chamado assim alguém que, se for o caso de um livro está, praticamente,  fazendo uma homenagem ao autor, possibilitando sua penetração em mercados talvez nunca dantes imaginados pelo artista? Não se trata de ingratidão, mas, sim, de manutenção do texto original, um direito de quem escreve e nem sempre levado em conta por quem traduz. E não por desonestidade. É que os tradutores também são escritores e podem ceder à tentação de dar uma “melhorada” na história em tradução. Uma palavra aqui, uma frase ali, e pronto: a trama fica “melhor”. Há casos de duas ou mais traduções de uma obra contarem histórias ligeiramente diferentes. E, se não fosse para ter uma tradução diferente, por que motivo, um editor contrataria um tradutor diferente?

Falo nisto porque estou lendo o livro “O gene egoísta” de Richard Dawkins, uma revisita à teoria da evolução de Charles Darwin, com perspectiva mais explícita. Na introdução de sua própria teoria, o autor menciona os eruditos tradutores dos textos hebreus do Antigo Testamento para o grego, vertendo a expressão “jovem mulher” para “virgem”. É um fato histórico e já dá para entender a importância do trabalho de tradução. Porém meu comentário não se prenderá a adaptações entre idiomas. Quero salientar o aspecto comunicacional e a importância dada a quem serve de intermediário entre a origem da mensagem e o seu destinatário.

No caso literário, mencionei o tradutor, nos induzindo ao erro. No caso da informação, existem, cada vez mais, organizações, dando a versão dos fatos de acordo com suas conveniências. Ou vocês acreditam, realmente, jornalistas – comunicadores dos fatos – comunicando coisas contrárias aos interesses das suas organizações? Há países onde a imprensa é controlada pelos governos e noticia tudo de maneira uniforme. E noutros países a própria imprensa, livremente, se reúne em grupos para noticiar tudo de maneira uniforme. Ou seja, não existe escapatória. Só temos acesso àquilo decidido ser de nosso interesse.

Nossa salvação informativa está na internete. Pelo menos, ali, por enquanto, temos a liberdade de procurar tantas quantas versões dos fatos quisermos. Mas notem bem: por enquanto.

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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