
PÁSSAROS MORTOS, VIRTUOSAS MULHERES. UM COMPUTADOR DESALMADO
Apareceram de novo.
Comecei a vê-los novamente. Voltei a encontrá-los em meu dia a dia. Pássaros mortos
Há muitos anos atrás, durante um determinado período, por todos os lugares da cidade, apareciam.
Quando menos eu esperava, lá estava um, aos meus pés, ou quase sob eles. Seguiu-se, isso, naquela época, quase todos os dias, por umas cinco semanas.
Às vezes, distraído, quase pisava num deles. Mas, em geral, já os antevia, por causa da minha antiga mania de caminhar olhando para baixo, e com isso lembro um comentário em tom de repreensão filosófico que me foi dirigido “quem anda assim vai mais rápido para o túmulo”. Minha avó materna, já nos noventa de idade, ainda caminhava na rua mais ereta do que eu. Parecia um soldado.
Mas enfim, voltemos, voemos, aos pássaros. Diferentes espécies, diferentes mortes. Sem alguma parte do corpo, enrijecidos, ainda molhinhos, mortos de velhice, de acidente, veneno… vai saber.
Então peguei tal estranho fato dos pássaros com outro fato verídico que acontecia também na mesma época: alguém com eu quase sempre cruzava em minhas idas e vindas pelo trajeto da minha casa. Alguém que, nos domingos pela manhã, passava sempre pela frente onde morávamos, de aluguel, atrás da Citral Encomendas. Meu escritório, naquela grande e antiga casa, era na peça da frente, onde, por detrás de uma grade, eu enxergava uma boa parte da rua, ao mesmo tempo em que ficava meio oculto por uma planta do pátio. Era algo hitchcokiano.
Tinha eu, por hábito, nas férias, e fins de semana, levantar cedo, antes de todos, para escrever. E assim, nos domingos, pelo horário, e a companhia, nada mais posso pensar que a moça, e a velha senhora que normalmente estava com ela, e que passavam pela calçada da minha casa, iam à missa. E missa, não culto. Até isso podemos detectar pelas pessoas e seus jeitos. Eram elas uma dupla vinda de algum romance de costumes, de alguma novela das seis de época.
A moça e a velha senhora.
A moça sozinha.
E era assim que passavam. Sempre. Por semanas, dias, meses. Há uns dez anos, ou mais.
Enfim, quanto ao conto que teci com os pássaros e com elas, o texto era bacana. Mandei-o a um apreciador de alto calibre. Gostou e manifestou a mim a ideia de que tal história merecia ser estendida. Segundo ele, tinha uma riqueza em seu miolo que podia ser mais amplamente explorada, e, quem sabe, passar o conto à novela.
Na época não me empolgou o lance de torná-la em outro gênero literário, mas explorar outras possibilidades nela como conto, isso sim. Deixei-a, então, de molho.
Perdi-a, definitivamente. Coisas de computador. Para minha esposa, era uma de suas favoritas, e ela me cobra, ainda, que eu a recrie de novo.
Se acontecesse isso com Shakespeare, com seu Romeu e Julieta, por exemplo, será que tal peça, retornada, reescrita muitos anos depois de um apagamento total, seria a mesma? Seria… melhor? Melhor, no caso, impossível.
Talvez um dia, se baixar a musa, eu ressuscite tal conto. Por enquanto, a musa, para tal, não segue voando. Por enquanto, para essa tal história, ela é apenas um pássaro caído, um pássaro morto. Um conto que o computador, indiferente, comeu.
Mudei-me. Não vejo mais as duas virtuosas mulheres. Embora, se alguém quiser conhecer a moça, que por motivos que vão além do físico (o material e o etéreo pareciam fascinantemente inseparáveis nela) torneia-a um dos personagens centrais de tal conto, talvez a encontre ainda numa conhecida loja da cidade, próxima ao Banco do Brasil.
Todas as razões mesmo, eu apresentava no conto, e, aqui não cabem, pois mereceriam uma crônica própria. Quanto aos pássaros, bom, voltaram.
Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
[Leia todas as colunas]


