
DARK FASE DO ESCRITOR
Enquanto fumaças tóxicas brotam de uma xícara, antes de café e agora com experimentos gastronômicos frustrados, surge atrás da pilha de louças um ser maligno. Com risadas maléficas e dentes protuberantes prontos para morder um mofado cupcake.
Eis que a criatura assustadora vem com cascas grossas, como quem não toma banho há dias, espalhando seu odor fétido pela cozinha. Com diversos post-its colados pelo corpo, além de pilhas de papéis formando um denso caminho de letras e setas. Canetas de diversas cores, estrebruchadas. Nos fios de cabelo desgrenhados, os piolhos levantam placas de socorro.
Além de me perguntar quem diabos escreve na cozinha, ousei a expressar uma sombra de recepção calorosa. Talvez faltasse isso, calor. Entretanto, a vivente pudesse confundir esse acolhimento com as labaredas do inferno e me devorar. Não podia arriscar. Pensar era necessário.
Dialogar não seria possível, uma vez que a criatura só emitia sons guturais. Um misto de risada inacabada com lágrimas de desespero. O que eu conseguiria fazer nesse momento? Ainda estava na pior fase da metamorfose. Sinceramente, parecia que todas as palavras que ela sabia, foram transferidas para aqueles papéis. Comunicação seria impossível. Não restava escolha. Eu precisava desafiar aquele monstro.
Peguei um caderno sobrevivente, procurei uma folha em branco e pus entre nós. Um escudo com um material familiar. A desalmada avançou. Com um movimento brusco, toquei mais uma caneta surrupiada do caos no seu corpo. A letargia dos movimentos dela me dava tempo para observar a cena com medo e fascínio.
Com uma mão segurando o outro braço para escrever, firmei o caderno para que ela então se comunicasse. Seis letras, foi isso que percebi. Tremendo girei o caderno até mim, cansada ela caiu ao chão. Estava derrotada pela exaustão. Quando li, sabia que tudo ficaria bem, estava apenas escrito “momozi”. Abracei o corpo e em um berro dilacerado que tremeu as estruturas da casa, ela libertou os espíritos do mal.
-Eu acabei! Eu terminei!
E então um furacão vindo da sua boca revirou tudo ao redor e sobrou apenas a carcaça de uma jovem mulher abraçada em um livro. A transformação estava concluída. Peguei uma coberta, uma xícara de chá e entreguei a ela. Em uma pose dramática, ela pediu para que a deixasse sozinha. Leave me alone. Ainda seria impossível a comunicação, mas o pior já havia passado. Pude então eu aproveitar daquele momento fragilizado. O melhor momento, o que me faz acompanhar tudo de perto e não temer.
Com cuidado, beijei a testa dela. Retirei o livro de seus braços e sentei no sofá. O melhor livro que eu leria. Uma luz dourada cintilava daquele livro e quando o abri, fui transportado para o seu universo. E pude viajar pela história e voltar. Quando retornei, a casa estava em ordem novamente. Ela, de vestido rodado e sapatinho. Segurando um bolo de chocolate. Sorrindo com seus dentes largos. Encarando o fascínio dos meus olhos ao vê-la. Aqueles olhos, sempre aqueles olhos a mirar. Tive uma palpitação. Um pressentimento de que o próximo seria logo, e seria cada vez pior.
Por Krishna Grandi
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