Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 10 de dezembro de 2021 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

O que esperar de 2022, por Rafael Tourinho

O que esperar de 2022

Foi um ano complicado. Quer dizer, está sendo. Ainda faltam 21 dias para o fim e, até lá, muitas surpresas podem acontecer.

Ontem mesmo estive na homenagem póstuma ao Álvaro Vicente, evento que integrou a programação de Natal em Taquara. Nosso querido mestre foi uma das mais de 620 mil histórias de vida interrompidas pela covid no país – um número com o qual não podemos nos acostumar.

Reunir tanta gente conhecida, tantos amigos e alunos do professor de música, foi um misto de dor e satisfação. Dor porque não tínhamos o maestro conduzindo os trabalhos. Satisfação em perceber que seu legado permanece. Ele ajudou a desenvolver tantos talentos!

Aliás, nessas horas em que o choro engole as palavras, a arte tem mesmo o poder de confortar. As canções nos inspiram, nos fazem refletir e processar os sentimentos, ainda que não saibamos exatamente traduzir o que estamos sentindo.

Bom seria encontrar a palavra exata, aquela que qualquer pessoa pudesse entender. Assim, talvez, conseguíssemos compreender não só nós mesmos, como também os outros. E então as discussões (sobre futebol, política ou comportamento) não seriam tão acaloradas.

Olhando em retrospecto, percebo que escrevi bastante sobre Língua Portuguesa, ao longo de 2021. Falei de como é importante nomear os fenômenos, do quanto a linguagem evolui junto com a sociedade e de como as variações linguísticas convivem no Português contemporâneo, embora nem sempre de maneira harmoniosa.

Lamentavelmente, tamanha riqueza lexical não é o bastante para estabelecermos conversas serenas. É como se muitos de nós tivessem recrudescido. Tão acostumados estamos às falas proferidas no calor do momento, nem sequer nos preocupamos mais se sairmos queimados de uma discussão.

Senti inclusive receio de abordar certos assuntos nesta coluna. Depois que um artigo sobre tentativas e erros da ciência gerou embates infinitos nos comentários do Facebook, tive um vislumbre de como a gente perdeu a vergonha de se xingar mutuamente.

Ontem éramos primatas vivendo em cavernas. Hoje somos primatas com acesso a um smartphone. Às vezes me pergunto até que ponto dominamos a tecnologia, ou se são os aparatos tecnológicos que nos comandam e nos tornam cada vez menos humanos.

Não que eu seja de todo pessimista. Acredito no potencial de nossa espécie. Temos as artes, as linguagens e as ciências! Só andamos meio esquecidos da importância delas.

Amanhã ainda estaremos em dezembro e nosso futuro continuará cheio de incertezas. Cientistas seguirão com suas perguntas para o que não entendem. Artistas, com suas produções que buscam dar sentido ao caos. E nós, com nossas palavras. Saibamos usá-las.

Resolvi escrever este texto de hoje sem saber muito bem como terminaria. A última coluna do ano costuma ser uma espécie de retrospectiva, misturada a desejos para o novo ciclo que se inicia em breve. É provável que seja ingenuidade minha, mas espero, de verdade, que em 2022 consigamos rotular menos o que nos é estranho e admitir nossa própria ignorância diante dos fatos complexos.

Obrigado pela leitura. Meus sentimentos a todo mundo que teve perdas neste ano pandêmico. Que as festas proporcionem nosso merecido descanso antes de enfrentarmos as próximas batalhas. Até lá.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]