
A LEI DOS FOGOS E A VOLTA À BARBÁRIE
Todos temos certas rotinas que se sucedem dia a dia. Uma das minhas é, pela manhã, dar uma passada nas redes sociais (leia-se Facebook – única rede social em que tenho perfil), e na página da Rádio Taquara para saber dos acontecimentos da região.
Hoje pela manhã (quinta-feira), as coisas não se sucederam de outro modo. Acessei o Facebook, a página da Rádio e me deparei com a notícia de que o Vereador Júnior Eltz (PSB) – vereador que não conheço e não votei – apresentou na Câmara a proposta de proibição da queima e soltura de fogos com efeito sonoro em Taquara. Proposta aprovada e sancionada pela Prefeita nessa terça-feira, dia 14 de dezembro. Júnior, na matéria, explica os motivos que o levaram a propor essa proibição.
Mas, o que me chamou a atenção foram os comentários feitos na postagem da notícia. Incrivelmente, para minha surpresa, os comentários eram críticas ao projeto e ao Vereador pela iniciativa. Não estou usando este espaço para fazer elogios ou afins sobre o Vereador, e sim para fazer a defesa da proposta e para dividir com os leitores e leitoras minha perplexidade com o egoísmo e a falta de empatia dos moradores e moradoras que usaram o espaço dos comentários para manifestar seus posicionamentos pouco ou nada civilizados.
Sabemos que um dos pressupostos básicos da vida em sociedade é a premissa de que “minha liberdade acaba quando inicia a do próximo”. Essa ideia central da vida em sociedade, e muito mais da vida em sociedade democrática, parece ter sido esquecida nos últimos tempos, e o que vemos é quase o egoísmo primitivo que prevalecia quando a luta era, literalmente, por sobrevivência. Esquecida em muitos momentos, não foi lembrada novamente.
Repetirei que os fogos com efeitos sonoros prejudicam idosos, doentes, crianças, animais, pessoas com deficiência, autistas, etc. Se, sabendo disso – e eles e elas sabem – ainda assim manifestam contrariedade à aprovação do projeto, percebemos que passa do nível de falta de empatia e de não respeitar a premissa da liberdade do outro, e beira a barbárie, a selvageria.
Me sinto meio perdida para escrever essas linhas hoje, tamanha a minha surpresa com os comentários que li. Em muitos momentos vemos o uso da linguagem bruta e discursos de ódio e defesa da violência e afins. Mas estou aqui abismada é com o tema em questão; com o fato de termos pessoas criticando uma ação de proteção social. Sim, porque apesar de alguns membros mais retrógrados da nossa região não perceberem, essa proposta é uma ação de proteção social de moradores e moradoras frágeis ou debilitados como os doentes, idosos e crianças. É ação de proteção para os autistas com hipersensibilidade auditiva. Para os animais que se assustam e sofrem com a elevação do estresse causada pelo barulho dos fogos.
Alguns minutos se passaram e eu sigo aqui tentando pensar: como a gente argumenta com pessoas que não têm a mínima sensibilidade para perceber a importância desta lei e para se colocarem no lugar do outro? Como a gente mostra para essas pessoas o quanto estão equivocadas e como seus comentários são incivilizados e insensíveis? Como a gente explica a quantidade de engajamento numa briga por uma lei como essa, e o não engajamento, a falta de revolta com pessoas tendo que comprar ossos e pele de galinha para sobreviver? Voltamos realmente aos tempos bárbaros e selvagens dos seres pré-históricos?
A mim, o simples fato de saber que isso afeta negativamente outras pessoas já é argumento para meu posicionamento favorável.
Enfim, para concluir minha explanação e as respostas que não consegui encontrar para minhas perguntas, deixo aqui meus parabéns aos vereadores e vereadoras que votaram favoravelmente ao projeto; meu desprezo e repúdio aos Vereadores Everton e Sandro Montemezzo que votaram contrário e à Vereadora Magali Silva que se absteve – isso me lembrou Dante Alighieri quando este afirmou que: “No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.
Feitas as parabenizações e exposto meu repúdio, encerro esta coluna desejando, sinceramente, que um dia eu não precise mais me fazer os questionamentos que me fiz hoje.
Por Ana Maria Baldo
Professora, de Taquara
[Leia todas as colunas]


