
Fugindo ao padrão numa cidade pequena
“Quando você descobriu que gostava do sexo oposto? Foi difícil revelar essa preferência para sua família? Quer dizer, nada contra heterossexuais, até tenho amigos que são. Mas não precisa exagerar, né? Essa história de andar de mãos dadas na rua, por exemplo: por que se expor de tal maneira? Imagine eu chegar a uma lanchonete com meu filho e encontrar um casal se beijando, dando risadinhas apaixonadas. O que vou explicar para a criança? Sim, todos são livres para se relacionar com quem quiserem, o importante é ter caráter. Mas poderiam fazer isso dentro de casa, entre quatro paredes! Não precisam mostrar para o mundo.”
O parágrafo acima foi uma ironia. Se você sentiu algum estranhamento ou desconforto com essas palavras, talvez possa entender o que é estar na pele de uma pessoa LGBTQIA+. Afinal, quem desvia de um padrão naturalizado na sociedade ouve comentários desse tipo o tempo todo. Já pensou amar alguém – um sentimento tão bonito – e não poder extravasar essa felicidade por medo da reação da família, dos vizinhos ou dos colegas de trabalho? Por acaso uma simples manifestação de afeto sua, como um beijo no rosto de alguém, seria motivo para desconhecidos espancarem vocês dois na rua?
Pois isso acontece conosco. Somos um dos países que mais matam homossexuais, travestis e pessoas trans no mundo. Para escapar da violência, muitos cidadãos acabam criando estratégias: disfarçam trejeitos, vestem roupas discretas e vivem suas relações amorosas na clandestinidade. Ou seja, são impedidos de existir plenamente por causa do preconceito alheio.
No ano passado, na ocasião em que o governador do Rio Grande do Suldeclarou publicamente sua homossexualidade, houve quem dissesse se tratar de uma atitude desnecessária. “Não me importo que Eduardo Leite seja gay, contanto que demonstre caráter”. Ora, essa fala cria um falso paralelo entre moralidade e sexualidade. É como se o desvio do padrão heteronormativo também significasse, a priori, um desvio de conduta – a menos que o sujeito provasse o contrário. Aliás, em pleno século XXI, homossexuais ainda tentam compensar a “falha” de diversas maneiras. Por isso tantos se destacam na carreira acadêmica, nas artes ou no empreendedorismo: é como se dissessem que beijam rapazes, mas, APESAR DISSO, são excelentes profissionais.
Outras afirmações eram do tipo “não preciso saber quem o governador namora, só quero que faça um bom trabalho”. Bem, talvez essa gente não se interesse pela vida alheia, de fato. Contudo, o ato de sair do armário encoraja outras pessoas que ainda vivem em conflito interno. Cada vez que uma figura pública se mostra gay, lésbica, bissexual ou o que for, ela contribui para diminuir o estigma. Porque, ao contrário do que algumas mentes preconceituosas pensam, a população LGBTQIA+ não quer desvirtuar criancinhas nem destruir a família tradicional brasileira. Ela só quer o direito de existir sem temores. Para tanto, precisa se fortalecer.
Ainda existem indivíduos que preferem o relativo anonimato das metrópoles. Numa cidade grande, sentem ter mais liberdade para transitar pelas ruas e se relacionar com os semelhantes sem se importar com olhares tortos. Porém, há mudanças acontecendo no interior – e já não era sem tempo.
No último dia 28, participei duma live do canal Gay Nerd, no YouTube, contando um pouco de minha experiência enquanto homem gay morando em Taquara/RS. Também estiveram na conversa o Diego, de Ribeirão das Neves/MG, e o Wescley, de Tianguá/CE. Éramos três representantes de cidades pequenas, vindos de contextos socioculturais distintos, cada um com uma trajetória particular de vida. Apesar das diferenças, partilhávamos as mesmas angústias e alegrias de ser quem somos. Foi uma ótima oportunidade de conhecer outras histórias e de perceber que, aos poucos, a sociedade muda.
Convido quem lê esta coluna a conferir o vídeo com o registro do bate-papo. Se você é LGBTQIA+, provavelmente vai se identificar com alguma questão que abordamos (e foram tantas! Bullying na escola, mercado de trabalho, relacionamentos afetivos…). Se você não é da comunidade, poderá entender um pouquinho mais da nossa luta. E respeitar. É só isso que a gente quer.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
[Leia todas as colunas]


