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Esta postagem foi publicada em 25 de fevereiro de 2022 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Adaptação, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – O relacionamento entre homens e mulheres é uma impossibilidade paronímica: elas sonham com compreensão; eles só pensam em compressão.

ADAPTAÇÃO

Nos últimos cinco meses, fui obrigado a fazer uma coisa que costumava achar fútil: marcar novo ciclo na minha vida. Jamais me ocorrera dividir minha existência em fases, assim, tão estanques. Nas redes sociais, são comuns os votos dos amigos, nos felicitando pela passagem do aniversário, falando da idade e mencionando “outro ciclo a se iniciar”; ou pelo término de um relacionamento amoroso e um provável novo ciclo; ou por uma troca de emprego, mesmo involuntária. Sempre há outro ciclo pela frente. Talvez esse hábito seja consequência cultural da informática. Tornou-se muito comum falar em linha do tempo, tão explorada, antigamente, pelas divisões da História. Os programas de computador até abusam dessa ideia. De fato, podemos criar tantos ciclos quantos quisermos. Nossas classificações são elásticas, embora nosso tempo seja, a cada dia, mais curto.

Independente de exatidão matemática, consigo criar grandes divisões temporais – os ciclos – na minha vida, sem esquecer que cada uma delas admite várias subdivisões. A fase de agora é um tempo de adaptação. Adaptação àquilo por mim classificado como tragédia: fiquei viúvo. Eu, escritor de muita poesia, jamais escrevi poemas de amor para minha esposa. Com ela – e só com ela – vivi o mais amoroso dos poemas durante 47 anos. Hoje, cinco meses depois de sua partida, a dor imensa agigantou-se. Assim mesmo, estou tentando resolver pequenos problemas do dia a dia, adaptando-me a eles.

E, aqui, entro numa seara tratada em muitas crônicas e que identifico como um terreno mal temperado, usando metáfora dentro do tema, a culinária. Nunca refuguei trabalhos domésticos. Minha mãe, minha grande primeira professora – embora não fosse uma –, além de me alfabetizar, ensinou-me a encarar as tarefas da casa como um dever. E eu levei a sério esse dever. Com tal pensamento, sempre ajudei muito, tanto mamãe quanto minha maravilhosa esposa. Mas, comigo, houve um desvio na trajetória de executar as obrigações domésticas na cozinha. Segundo li, uma determinada atriz, com quem simpatizo, considera a coisa mais sexy do mundo um homem de avental. Para mim, o avental se tornou o compromisso de limpar as marcas deixadas por uma refeição, porém, não, a feitura da própria.

Este é um novo ciclo da minha vida: substituir duas grandes cozinheiras, mesmo sem ter qualidades naturais para isso. Se depender de comida preparada por mim, nunca serei sexy para aquela atriz (fora outros requisitos, é óbvio). Meu avental deixa limpos os pratos, mas não tem talento para abastecê-los.

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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