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Esta postagem foi publicada em 18 de junho de 2010 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Violência

plinio1Do “Meu livro de citações” – Quando o regulamento de um concurso é muito detalhado, abra o olho.
VIOLÊNCIA
A arena está cheia. Veio gente de todo o lugar. Ali é o centro do mundo e o espetáculo vai começar. Os deuses da luta estão satisfeitos, não importa quantos vão morrer até o fim do dia. A batalha será gloriosa.
Há música e gente fantasiada pelos corredores do edifício-sede; os comerciantes de comidas e bebidas se atropelam para atender os fregueses. E olha que a freguesia vai com sede ao pote. Nos olhos de cada um, adulto ou criança (os pais trazem), há uma indisfarçável sede de sangue. Ela será saciada bem logo. Todos estão acostumados. Quando os corpos entrarem em choque, ossos quebrarão, carnes rasgarão, crânios se esfacelarão, orelhas serão arrancadas; olhos serão furados; rostos serão cuspidos. Enfim, tudo aquilo que satisfaz à massa. Já falei de morte? Sim, poderá haver morte também, ou entre os contendores ou entre os assistentes.
Descrevi, até agora, uma alegre tarde na Roma antiga, nos momentos antecedentes a um espetáculo no Circus Maximus? Não, mesmo, carinhas. Estou falando de uma simples partida de futebol. Sem exagero.
Talvez vocês, tão apaixonados pelas pedaladas do “menino Robinho”, nunca tenham prestado atenção, mas as ações praticadas neste esporte –  especialmente, neste – são dignas de ilustrar qualquer campanha antiviolência.
Provavelmente, sempre foi assim com o futebol. Acontece que o entorno social mudou e, hoje, as pessoas encaram a sua prática de maneiras bem menos ortodoxas. Esqueceram qualquer aura romântica de disputa amistosa entre amigos reunidos para celebrar o companheirismo e caíram na gandaia, deixando aflorar o lado menos soft do ser humano. A preparação física refinou-se, criando atletas que são verdadeiros tanques de guerra, não importa a aparência franzina de um ou outro jogador.
Mudou, também, outra coisa de peso: a tecnologia. Aquilo que, em tempos mais remotos, num estádio não víamos, hoje podemos registrar e exibir à exaustão em nossa casa. Isso tirou qualquer resquício do romantismo, que porventura ainda pudesse perdurar. Expôs uma face da violência a qual não costumamos levar em consideração, pois não atinge o lado físico. A imagem televisiva mostra, com detalhes, e de vários ângulos, subterfúgios desonestos praticados pelos atletas e especificamente proibidos pelas regras. Os jogadores se tornaram atores, tentando nos fazer crer que são vítimas de seus oponentes. Caem, sofrem, mentem, usam a mão (lembrem-se da “mano de Dios” do Maradona), sempre querendo enganar o juiz e, consequentemente, a assistência. Todas essas malandragens contam com o beneplácito de quem deveria zelar pelos bons costumes esportivos, a Fifa, entidade retrógrada que não aproveita a oportunidade de dar qualidade ao jogo. Os apaixonados reclamam da falta de futebol-arte, quando essa arte, em verdade, é apenas a catimba e a malemolência.
Voltamos ao circo romano. Só falta os participantes bradarem a plenos pulmões: “Ave, Caesar, morituri te salutant”.

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