
Falando em bom português
Ainda me lembro de minha estranheza ao escrever “voo” e “ideia” sem acento pelas primeiras vezes, em respeito ao Acordo Ortográfico que vigora desde 2009. Deve ter sido uma sensação parecida à de nossos antepassados, obrigados a abandonar a grafia de “pharmácia”.
Hoje as novas normas me parecem normais, com o perdão da redundância. Aliás, esse é um ponto importante. A gramática normativa, considerada por muitos como a “língua correta”, não passa de uma construção. Em algum momento do passado, um grupo de estudiosos determinou que aquela seria a forma pela qual estabeleceríamos comunicação – assim como ocorre com outros padrões considerados normais por nossa sociedade.
É graças ao português normativo que eu escrevo este texto e qualquer pessoa alfabetizada no nosso idioma consegue lê-lo. Portanto, de certo modo, a gramática padronizada serve para democratizar o acesso à informação. Por outro lado, se eu enchesse a tela de gírias e regionalismos, esta coluna viraria uma espécie de carta cifrada, dificultando a compreensão de quem não pertence à minha realidade.
Porém, tenho consciência de que a norma-padrão não é a única maneira possível de se expressar. Ela pode até ser a solução mais adequada para determinados contextos, como um artigo opinativo num portal de notícias. Mas não é o “bom português”.
A língua correta simplesmente transmite a mensagem que queremos passar. Para isso, ela se molda às circunstâncias. A forma como você conversa com uma criança de três anos não é a mesma forma como você se dirige ao seu chefe, por exemplo. Muda-se a entonação, adapta-se o vocabulário e, vez ou outra, engole-se os plurais.
Já que mencionei os plurais, vale acrescentar que o português normativo não é perfeito. Basta pensarmos nos substantivos invariáveis de plural implícito, que nunca são utilizados no singular: férias, parabéns, pêsames, óculos. Ou nos verbos defectivos, que não admitem certas conjugações: extorquir, colorir. O padrão dito correto proíbe a professora de dizer “crianças, coloram a figura do óculos no livro de colorir”, embora essa seja uma construção frasal até comum.
E nem cheguei aos sentimentos intraduzíveis. Se nosso léxico tem a tal da saudade, os alemães têm schadenfreude e os japoneses,wabi-sabi. Impossível explicar, em termos simples, a satisfação ao ver alguém se dar mal ou a aceitação da impermanência e da incompletude do mundo.
Claro que podemos pegar termos estrangeiros emprestados. Ou, então, criar novas palavras para os fenômenos que surgem – até porque dar nomes específicos às coisas aguça nosso olhar para as identificarmos melhor. Frente a essa necessidade, houve a inclusão de “feminicídio”, “criptomoeda” e diversos outros substantivos no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP, para os mais chegados).
É natural que adaptações aconteçam. A sociedade evolui e, com ela, a língua também se transforma para atender às demandas de uma época. Lutar contra esse movimento nos faz apenas parecer anacrônicos, como quem escreve “farmácia” com PH porque tem saudades de um passado idílico.
Diante de tudo exposto até aqui, chega a me dar um misto de constrangimento e desânimo quando vejo pessoas compartilhando um post no Facebook com a chamada “porque usar o pronome neutro torna você um retardado”. O conteúdo é problemático em diversos níveis.
Em primeiro lugar, conforme a gramática normativa, a frase deveria começar com “por que”, assim mesmo, separado. É a junção da preposição “por” com o pronome relativo “que”, equivalendo a “por qual motivo” ou “por qual razão”.
Segundo, “retardado” é um termo pejorativo para se referir a pessoas com deficiência intelectual. Logo, trata-se de um xingamento capacitista e que deveria ser abolido de nossa sociedade supostamente evoluída.
Terceiro, o texto que acompanha a chamada, retirado da página de uma escritora, mostra como a vogal temática de uma palavra não define gênero gramatical. “O motorista” continua sendo masculino, mesmo que terminado em A etc. É uma explicação legítima, mas que pouco tem a ver com pronomes neutros ou identidade de gênero não binária.
Vê-se que quem elaborou o post parece defender o bom português, apesar de não ter pleno domínio gramatical. Contudo, no subtexto, percebe-se o preconceito contra falas dissidentes e variações linguísticas que fogem ao comum. Assim, cada vez que alguém compartilha esse conteúdo, não está taxando de ignorantes os sujeitos que adotam o pronome neutro. Está, a bem da verdade, revelando sua total incapacidade de perceber as complexas dinâmicas de nosso idioma. Reitero o que já afirmei nesta coluna: quaisquer expressões e “invencionices” lexicais são perfeitamente aceitáveis, dependendo do contexto, mesmo quando não estão consolidadas nos manuais de redação. Se elas entrarão de vez para a gramática, só o tempo dirá. Seja como for, esse processo provavelmente levará séculos e nenhum de nós estará vivo para ver o resultado. Mas talvez um lusofalante do ano 2500 leia este texto e ria das ideias que discutíamos num Brasil ultrapassado. Ideias, por ora, sem acento.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
[Leia todas as colunas]


