
Iniciada após a descoberta de um problema no quadril, a carreira de Bruno Bauer, de Taquara, é repleta de momentos de superação e dedicação à corrida. Praticante de provas de rua e também de trilhas, o atleta contou à reportagem da Rádio Taquara como foi sua experiência na realização de um sonho: participar do Ultra Trail do Mont-Blanc (UTMB), na França.
Aos 40 anos, Bruno relata que teve uma vida praticamente sedentária até por volta de seus 26 anos. O então professor do Ensino Técnico na Escola Dorothea Schäfke costumava apenas jogar futebol com os amigos nos finais de semana. E foi durante uma destas partidas que ele descobriu um problema de saúde.
“Nessa época, eu tive um acidente jogando bola, senti um estalo no meu quadril e comecei a sentir dores nessa região. Depois de meses de investigação, e já usando muletas, descobri que eu tinha a síndrome do impacto femoroacetabular, uma má formação da cabeça do fêmur”, conta o atleta.
Após duas operações no quadril, cinco anos sem praticamente exercer nenhuma atividade física e com vários quilos acima do peso, o taquarense decidiu mudar de vida e começou a se exercitar em uma academia da cidade.
Depois de quase um ano na academia, e contrariando recomendações médicas, que lhe impediam de fazer atividades de alto impacto, o atleta começou a correr na esteira, pra diminuir seu peso, e o interesse pela corrida só foi aumentando.
“No começo eu até sentia um pouquinho de dor. Fui aumentando meu tempo na esteira e, como eu sempre fui muito teimoso e persistente, eu comecei a criar gosto pelo desafio de fazer mais, de aumentar o tempo de corrida e, no final de 2011, eu estava correndo 10 quilômetros na esteira. Foi quando decidi me inscrever na minha primeira corrida de cinco quilômetros, a Rústica da Faccat”, relembra o taquarense.
Neste mesmo ano, o atleta começou a ter orientação com o professor de Educação Física, Marcelo Ramos Raymundo, e passou a participar do grupo de corrida Ad Movere. E até 2013, o corredor seguiu participando apenas de rústicas, as provas de rua.
“Comecei pelas corridas de rua, pelas rústicas, correndo cinco e 10 quilômetros. Então, comecei a me desafiar e decidi participar de uma meia maratona, em Punta del Leste, onde fui com o grupo Ad Movere. Estabeleci de fazer essa prova em menos de 1h30min, então me comprometi em treinar e fazer bastante força. Dali pra frente, eu corri minha primeira maratona em Porto Alegre, em 2014, sempre correndo no asfalto”, relata Bruno.
Aos poucos, o atleta começou a fazer treinos em trilhas, em estradas, e foi aumentando seu interesse por correr as provas de trail, de trilhas e montanhas. Mas foi somente em 2013 que teve sua primeira experiência em corrida deste tipo.
“Foi uma prova de revezamento, bem clássica, bem tradicional do Sul do país, que é a Volta a Ilha. É uma prova em grupo, de revezamento e que percorre toda a ilha de Florianópolis, em Santa Catarina. Depois disso, fiz a minha primeira ultramaratona de trilha e montanha em Urubici, também em Santa Catarina, e fui correndo várias outras provas no Estado mesmo, de 20 a 30 quilômetros de trilha, despertando meu interesse pelas longas distâncias”, analisa o corredor.
Em 2018, já no processo de começar a fazer provas maiores e fora do Brasil, até como forma de preparação para o UTMB, o taquarense se inscreveu em uma prova na Patagônia, no extremo sul da América do Sul, enfrentando condições bem adversas de clima extremo, com neve e bastante frio e vento. Todas essas provas foram lhe dando um histórico, uma bagagem pra poder enfrentar o desafio na França.
De acordo com Bruno, para correr no Ultra Trail do Mont-Blanc os competidores precisam ter em seu currículo três provas de longa distância, finalizadas com um empenho razoável, para então participar de um sorteio. Todos os anos, cerca de 10 a 15 mil atletas se inscrevem, mas apenas três mil competidores são sorteados para participar da competição, juntamente com os corredores que são considerados a elite mundial do esporte.
Localizado no sudeste da França, perto da fronteira com a Suíça, o Mont Blanc é o ponto mais alto dos Alpes. Com altitude de 4.808 metros, é o pico mais alto da Europa Ocidental e o sexto a nível continental, tendo em conta as montanhas do Cáucaso. Realizada entre os dias 26 a 28 de agosto, a 19ª edição da ultramaratona teve um trajeto de 171 quilômetros, passando pela França, Itália e Suíça.
“Fiz um ano de preparação, totalmente focado para essa prova, com treinos que ocorreram na região da Picada Francesa, em Taquara, e também na Serra Grande, em Igrejinha, locais onde a gente encontra muitas subidas e consegue fazer um simulado para se aproximar ao máximo das condições que encontra em uma prova como essa”, explica Bruno.
Apesar do prazo limite de 46 horas e meia para os competidores concluírem a prova do UTMB 2022, o taquarense conta que iniciou a corrida com a expetativa de finalizá-la em menos de 30 horas, tornando-se assim o melhor corredor brasileiro da história a finalizar essa prova.
“Infelizmente, durante a prova eu tive algumas dificuldades, com relação a alimentação e também uma torção no meu tornozelo, mas ainda assim consegui finalizá-la com um tempo muito bom, de 33 horas e 50 minutos. Larguei na sexta-feira (26), às seis da tarde na hora local, e cheguei no domingo (28), por volta das 2h da manhã, após completar os 171 quilômetros, com 10 mil metros de subida acumulada em torno do maciço do Mont Blanc”, destaca o atleta de Taquara.
Para os corredores que também desejam competir na UTMB, Bruno os aconselha a se prepararem durante alguns anos. É um trabalho que envolve não apenas a evolução no esporte, na corrida, no treinamento, mas também de dedicação extrema, de entrega e investimento, financeiro, de tempo, energia, dedicação e suor.
“Embora eu não tenha conseguido bater o melhor resultado dos corredores do Brasil, hoje eu tenho o melhor resultado de um gaúcho nesta prova mundial. Já temos alguns gaúchos que concluíram essa prova, ao longo desses últimos anos. Esse ano foram dois homens e uma mulher, mas o meu resultado é o melhor resultado de um gaúcho na história do Ultra Trail do Mont-Blanc. E entre os brasileiros, eu acredito que esteja entre os três melhores resultados na história do Brasil nesta prova”, comemora o atleta de Taquara.





















