Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 3 de outubro de 2022 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Proteger as crianças de quê?, por Rafael Tourinho

Proteger as crianças de quê?

Meu amigo Adri A. é um quadrinista talentoso. Começou publicando tirinhas na internet e hoje desenvolve uma HQ chamada Cara-Unicórnio. Ela conta a história de um jovem que, após picado por uma criatura radioativa, adquire poderes e decide combater o mal. Nada muito diferente de outros super-heróis, né?

As aventuras do Cara-Unicórnio já conquistaram um público fiel, que cresce a cada feira ou evento literário do qual o autor participa. Um dos mais recentes foi a Comic Con Floripa, no início do mês. Lá estava Adri, com seu estande de revistinhas montado, quando chegou um novo possível leitor: um gurizinho de no máximo 10 anos, acompanhado do pai.

Embora a criança demonstrasse interesse nos quadrinhos, o adulto queria saber (com razão) se o conteúdo era apropriado para seu filho. O autor explicou que as histórias eram voltadas a um público acima dos 13 anos, por causa dos palavrões e das cenas de violência. O pai continuou, perguntando se havia teor de sexualidade na obra. Adri respondeu que não havia sexo explícito. Insistindo na questão das “coisas de sexualidade”, o pai finalmente ouviu que a trama trazia protagonismo LGBTQIA+.

Pronto: foi o suficiente para o homem fazer cara de nojo e arrancar o gibi das mãos do filho, “como se fosse algo venenoso”, relatou meu amigo. Até então não tinha nada de errado. Pancadaria e palavrão, tudo bem. O problema era um protagonista gay.

Eu gostaria de pensar que se trata de um caso isolado, mas infelizmente não é o que acontece. Como aquele pai, existem outros tantos. Dia desses teve até candidato ao Executivo estadual bradando que pretende proteger as crianças da “ideologia de gênero”. Ele parecia querer defendê-las do bicho-papão.

Aliás, noto duas semelhanças entre ideologia de gênero e bicho-papão. 1) São usados para amedrontar incautos. 2) Não existem no mundo real.

O termo “ideologia de gênero” foi inventado por religiosos da ala mais conservadora (e friso o “ala mais conservadora” para não jogar todos os cristãos no mesmo balaio). Essa expressão designa, de maneira maldosa e pejorativa, os coletivos feministas, os ativistas pelos direitos LGBTQIA+ e outros grupos que ousam questionar padrões heteronormativos vigentes na sociedade.

Pessoas como aquele senhor de Florianópolis ou aquele candidato ao governo dizem que os defensores da ideologia de gênero querem destruir a família brasileira. Na verdade, trata-se justamente do contrário. O que se busca é o reconhecimento de que toda configuração familiar é legítima. Pai, mãe e filhos são uma família. Mãe solo e filhos são uma família. Duas mães adotivas ou dois pais adotivos e um filho também são uma família. A existência de um tipo de lar não impede a existência de outro.

Esses mesmos detratores afirmam que a ideologia de gênero vai acabar com o “homem de verdade” e ensinar criancinhas a serem homossexuais. Até parece!

Eu venho de uma família tradicional (pai, mãe e irmão mais velho). Estudei em colégio de freiras. Vivo numa cidade pequena, onde todo mundo julga a vida alheia e qualquer vizinho fora do padrão sofre preconceito. E, durante meus anos formativos, a coleção de Playboys do meu pai sempre esteve à disposição na mesinha de centro da sala. Ou seja: se fosse pelas influências do meio, eu jamais teria me entendido como gay. Mas a sexualidade é algo que nasce conosco.

Ninguém escolhe ser homossexual. No máximo, escolhe assumir um sentimento que já tem dentro de si – o que, em nossa sociedade machista e homofóbica, ainda demanda muita coragem. Portanto, o jovem não se torna gay simplesmente porque viu dois rapazes se beijando num gibi. De fato, o acesso a esse tipo de história serve apenas para mostrar que existem pessoas diferentes, que elas merecem respeito e que também são capazes de façanhas heroicas.

Assim como Adri A., espero que o pai daquele menino repense suas atitudes. E espero, mais ainda, que a população não se deixe levar pelo falso moralismo de certos políticos. Para proteger as crianças, precisamos de iniciativas públicas que privilegiem vacinação contra a poliomielite, educação de qualidade e combate à pobreza na infância. Agora, lutar contra ideologia de gênero é tão risível quanto adulto que teme o bicho-papão.

(Em tempo: a campanha de financiamento coletivo para a publicação do Capítulo 10 do Cara-Unicórnio segue aberta na plataforma Catarse. Tem pacotes com todas as edições anteriores para quem quiser completar a coleção. Apoie a arte independente!)

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Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
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