Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 27 de agosto de 2010 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Shrek também é para adultos

Durante as férias, fui ao cinema assistir o último episódio das aventuras de Shrek. A história do ogro que conquistou milhões de pessoas chegou ao final em seu quarto filme de animação.
Ao comemorar o primeiro aniversário de seus três filhos, Shrek se depara com um sentimento de insatisfação perante a vida. Cansado da rotina cotidiana e com saudade de seu passado de ogro assustador, Shrek encontra um golpista que o engana e lhe garante um dia com tudo o que deseja: nada de filhos, esposa e amigos, liberdade e a vida de ogro assustador de volta. Sem muita demora, Shrek assina uma espécie de contrato sem analisá-lo. Em um passe de mágica, Shrek volta ao seu passado e a ser assustador, fica livre de Fiona, seus filhos, rotina e amigos, tudo o que estava lhe deixando frustrado. Resultado: o ogro acaba colocando em risco sua amada Fiona, seus filhos, amigos e o “Reino Tão, Tão Distante”. A única forma de reverter a situação é através de um verdadeiro beijo de amor. Porém, Fiona não reconhece mais seu marido ogro e o beijo que poderia ser fácil, torna-se algo quase inatingível.
Shrek acaba percebendo que possivelmente nunca mais ficará com sua esposa, filhos e amigos caso não consiga o beijo para reverter a situação. Nessa passagem do filme, o ogro se dá conta de tudo o que perdeu: a mulher amada, seus três filhos e até o inconveniente burro, seu parceiro de aventuras.
Enquanto assistia ao filme pensei: “é… a gente só dá valor quando perde”. Para minha surpresa, Shrek colocou em palavras o que eu havia pensado, chegando a comentar com outro personagem a falta que sentia das pessoas e da vida que tinha, mas que somente perdendo-os conseguia ver o quanto eram importantes para ele.
Não vou contar o final do filme, pois aconselho, a todos que não o assistiram, fazê-lo. Embora se trate de uma animação infantil, o filme possui em sua história grandes lições e mensagens para nós, adultos, que vivemos cada dia com mais pressa e insatisfeitos com nossas vidas. Talvez um filme dirigido a crianças possa nos ensinar lições que a correria do dia a dia nos impede de aprendermos.
Vamos dar um pause em nosso ritmo alucinante e pensar em quem temos ao nosso lado. Por mais maçantes e monótonos que possam parecer, nossa rotina, problemas e as pessoas que participam de nossas vidas são o nosso alicerce e incentivo para seguirmos adiante. Vamos torcer para que, diferentemente de Shrek, não precisemos correr o risco da perda para valorizarmos as pessoas que estão ao nosso lado e a vida que temos. Talvez não tenhamos segunda chance e pode ser tarde demais… o filme pode ter acabado e talvez não consigamos assisti-lo novamente. Afinal, a vida não tem replay.
Jean Von Hohendorff
Psicólogo, mestrando pela Ufrgs

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