Vi “Chico Xavier”, o filme. Foi uma experiência e tanto. Antes de continuar, não sou espírita. Respeito o espiritismo, assim como todas as doutrinas e religiões que não envolvam sacrifícios de seres vivos. Faço este texto com o mesmo pensamento com que o diretor do filme, Daniel Filho, ateu confesso, o realizou, ou seja “não fazer uma apologia à causa espírita”, mas para falar do homem, do ser humano que deu toda sua vida ao bem dos outros, servindo com uma extraordinária paciência e dedicação tanto a seres de outro plano quanto aos irmãos aqui da Terra.
Daniel Filho já é nome calejado não só na Globo, como na TV brasileira: roteirista, diretor, produtor de programas e novelas – e que, de uns tempos pra cá, voltou-se, empolgado, novamente ao cinema, realizando filmes bacanas como a série “Se eu fosse você”, “Tempos de paz”, e outros. Para “Chico Xavier”, Daniel assumiu uma bronca que muitos diretores não quiseram e acabou revelando que a vida do médium ainda dá assunto para muitas e muitas outras produções. Estamos muito bem de diretores no Brasil, e não seria nada mal ver tal legado sendo trabalhado por eles. Por exemplo, quando este texto estiver sendo publicado, você já estará vendo nos cinemas a versão de “Nosso Lar”, essencial e fascinante obra psicografada por Chico.
Em “Chico Xavier” o espiritismo, assunto polêmico, nunca se sobressai ao aspecto humano, mas é o contexto dentro do qual o diretor mantém seu foco no personagem central, tendo também o cuidado para que a envergadura sobrenatural do tema não transforme sua obra numa “história de fantasmas”. Muito bem montada, a narrativa se estrutura com um programa de entrevistas ao qual Chico vai (programa criado em cima de várias entrevistas que ele deu) e ao qual se intercalam fases da vida do médium mais o drama de um casal, tudo isso se entrelaçando para desembocar num final de puxar o tapete. E tudo, inclusive as tiradas cômicas, o mais verídico possível. Valoriza a produção um time de grandes astros, e é arrebatador o trio que encarna Chico da infância à vida adulta.
Mas até aqui falei do filme mais do que do homem. Chico sacrificou corpo e alma à causa espírita, dando alento aos necessitados, e nunca cobrou, nunca quis nada em troca, nunca pensou no seu bem próprio, só no auxilio ao próximo. Chico sabe que a evolução do homem só se dará pela conquista da bondade e da caridade, dentro das quais está a educação moral, e o afastamento do indivíduo da ignorância. Chico, ao mostrar a nossa real função neste plano terreno e como devemos aceitar a vida em tal plano, se tornou um paradoxo, uma utopia possível, pois, cada vez mais (vergonha!), busca-se o egoísmo, a vaidade e o individualismo em nome da autopreservação.
Esta postagem foi publicada em 10 de setembro de 2010 e está arquivada em Colunas, Haiml & etc..


