
A Justiça de Taquara negou o pedido de prisão preventiva de dois acusados de serem os responsáveis por um lar clandestino de idosos no interior do município. A descoberta do estabelecimento, e das condições em que estavam as vítimas, chocou a comunidade. A decisão de negativa da prisão foi apurada pela reportagem, mas os detalhes da fundamentação ainda estão mantidos em sigilo.
Dois homens foram apontados na investigação da Polícia Civil como responsáveis pelo estabelecimento, que fica em Santa Cruz da Concórdia. A prisão deles foi solicitada à Justiça pelo delegado Valeriano Garcia Neto, titular da Delegacia de Polícia do município e que está à frente das investigações. Ao longo de todo o dia desta terça-feira, o delegado tomou depoimentos para embasar o inquérito. São várias linhas ainda em apuração.
Uma das situações que chamou atenção da polícia é que, até o final da tarde, nenhum familiar efetuou contato. Esse é um ponto que o delegado Valeriano pretende avançar na investigação, pois há informações sobre pagamento de valores à clínica, inclusive menção à quantia de R$ 1,3 mil por mês para cuidar de cada idoso. Os familiares podem ser investigados por abandono de idosos.
Condições degradantes
A situação do lar é considerada como desumana pelo delegado Valeriano, que classificou como um horror as condições em que viviam os idosos. Em entrevista ao programa Painel da Rádio Taquara, o policial contou que uma denúncia anônima levou a investigação até o local. O delegado relatou situação de animais como galinhas e porcos que circulavam no mesmo espaço, junto com os pacientes. Uma das vítimas, pessoa com deficiência, estava em um colchão com poças de urina e até vômito escorrendo da cama.
Uma mulher foi apontada como responsável por cuidar dos idosos, mas o delegado informou que ela própria era vítima dos responsáveis pelo local, pois estava em condição de cárcere privado. Essa mulher acompanhou boa parte da vistoria feita pela polícia e contou detalhes chocantes de como os idosos eram tratados. Num dos pontos, a mulher indicou que a criação de porcos era realizada junto com os pacientes.
A água do estabelecimento não era abastecida há dois dias. A mulher mostrou uma piscina com a água completamente esverdeada e disse que a orientação era utilizar a mesma para dar banho nos idosos, lavar roupas e, até mesmo, cozinhar. A investigação da polícia apura a denúncia de que essa mulher seria abusada sexualmente pelos responsáveis pelo lar e, ainda, teria tido que ceder seus proventos que estavam em sua conta bancária. Há relatos de falta de comida para os idosos.
Falecimentos
Na entrevista à Rádio Taquara, o delegado Valeriano confirmou que há apuração sobre mortes que teriam ocorrido no local. A investigação levanta os dados sobre três mortes registradas em 2022 e uma na semana passada. A mulher que acompanhou todo o trabalho da polícia no lar disse que não sabe o que os proprietários fizeram com os corpos dos idosos que morreram no local. A situação pode levar a polícia até a uma eventual responsabilização pelo crime de homicídio, se houver comprovação dos fatos.
Atendimentos aos idosos
Tanto nesta segunda quanto nesta terça-feira (3), a Secretaria de Saúde informou a realização de avaliações médicas com os idosos resgatados, para levantar quais são as comorbidades de cada uma das vítimas. “Esta triagem é necessária para ver que tipo de medicação poderemos dar a estas pessoas. Além disso, estamos verificando os dados dos idosos, para localizar parentes próximos, para que, posteriormente, possamos fazer os devidos encaminhamentos”, explica o secretário de Saúde, Dodô Mello.
Já a Secretaria de Desenvolvimento Social, Trabalho e Cidadania trabalhou na parte de assistência social com as vítimas. Ainda na noite de segunda-feira (2), todos foram encaminhados a uma clínica geriátrica particular, custeada pelo Município. O local não será divulgado para preservar a identidade destes idosos. Mas mesmo neste local, o delegado Valeriano pontou que houve uma surpresa muito forte sobre a condição em que chegaram os idosos. “Desnutridos, fezes escorridas pelas pernas, dias sem banho”, comentou o policial.
“Já conseguimos contatar algumas famílias. Ainda está sendo muito difícil encontrar alguns dados, mas no momento, estas pessoas seguirão neste lar para onde foram levadas na noite passada. Estamos fazendo todos os esforços para encontrar os seus familiares, para que em breve estas pessoas possam voltar para as suas cidades de origem”, completa o secretário de Desenvolvimento Social, Trabalho e Cidadania, Maurício Souza Rosa.
Fotos: Reprodução / Polícia Civil


