Do “Meu livro de citações” – A bergamota é um caso
de psicanálise: ela tem duas personalidades. Além de
ser bergamota, quando amadurece fica laranja.
CORRESPONDÊNCIA
No último sábado, estava eu fazendo compras no supermercado, quando, perto da hora mais cruel – a do pagamento – vi um produto da Editora Abril. Era um pacote contendo duas publicações, a principal e, outra, um bônus. Essa segunda revista me chamou a atenção. Era uma edição fac-similar d’O Pato Donald nº 1, de 1950. Já contei aqui que eu lavava a casa para minha mãe para ganhar dois cruzeiros a fim de comprar o Pato. Nessa época, década de 50 do século passado, descobri que a revistinha, já no formato atual (agora padrão para os gibis infantis), havia sido publicada em formato grande, no tamanho de uma revista Veja. Escrevi para os editores e recebi um triste comunicado: do nº 1 ao 26, o tamanho pretendido, havia-se esgotado. Essa correspondência é de 1958.
Entendem a emoção? Depois de 52 anos, pude matar o desejo da minha iniciante adolescência. Ainda tenho a resposta recebida da Abril e, na noite de sábado, com minha família que é, assim, emotiva, anexei-a, simbolicamente, ao gibi.
Mas o encontro rendeu muito mais. Para encontrar aquela carta, precisei pesquisar na caixa de minha correspondência recebida (eu a tenho toda). Foi uma triste/alegre viagem no tempo.
Por exemplo, em 6/11/1965, recebi convite para ir a um baile naquele mesmo dia. Era uma promoção do Ginásio Comercial Santo Inácio, em Porto Alegre, e iniciaria às 23h 30min. O convite foi enviado por Maria Elocy. Ela utilizou carta, pois não conseguira um impresso. Ela estaria me esperando lá. Devo confessar não lembrar de quem tenha sido a Maria. E, provavelmente, não aceitei a sugestão. Nada pessoal, mas danças nunca me entusiasmaram.
De 22/9/1969, fico sabendo que meu pai fora “aliviado” – segundo suas palavras – em NCr$ 17,80, pelo aluguel de uma casa que na época eu tinha e ele fora cobrar.
Em 14/1/1965, Guilherme Schultz Filho me comunica que, apesar de eu não ter vencido o “Grande Concurso de Cartazes para a Festa da Uva de 1965”, a minha participação deu “maior brilho àquele concurso”. Vejam só: dei brilho a um concurso!
Finalmente, em dezembro de 1965, a Mirna desejava “ao jovem Plínio Feliz Natal”. Eu tinha 21 anos e ela 8. Um legítimo amor infantil que, para sorte dela, não sobreviveu ao cartão natalino.
De que estou falando em todo este tempo? Falo da permanência do papel escrito. Se tudo isso tivesse ocorrido nestes maravilhosos tempos eletrônicos (sem ironia, mesmo), duvido um dia eu poder recuperar tanta informação da minha história. Um emeio duraria muito menos. Se hoje a informação é rapidamente produzida, mais rapidamente, ainda, é destruída.
Não vivo sem a internete, mas uma carta tem o seu valor. E ainda pode ser perfumada.


