Geral

Voluntárias em Taquara falam sobre doação e descarte de roupas e calçados

Muitas das doações não podem ser aproveitadas, seja pelo estado de conservação ou limpeza, ou até mesmo pelo tipo de roupa ou calçado que são doados
Fotos: Arquivo pessoal

Não bastasse a corrida contra o tempo para arrecadar doações às famílias atingidas pelas enchentes da semana passada, que agora sofrem também com a queda de temperatura no Estado, muitos dos voluntários espalhados pelo Rio Grande do Sul ainda precisam descartar roupas, calçados e outras doações em péssimas condições de conservação ou limpeza. Para explicar o óbvio, ou o que deveria ser, duas voluntárias de Taquara, Mariana Petry e Fernanda Branchine, falam sobre a diferença entre doação e descarte de roupas e calçados.

Uma das idealizadoras do “Brechó das Amigas”, evento que resulta no repasse de recursos para entidades de Taquara, a advogada Mariana Petry está, desde segunda-feira (06), auxiliando na organização do recolhimento de doações realizado pela Paróquia Senhor Bom Jesus, em parceria com a Prefeitura de Taquara, recebendo roupas e calçados, masculino, feminino e infantil, além de itens como cobertores e toalhas.

A ação, liderada pelo grupo responsável pelo Brechó das Amigas, conta com a colaboração de outros voluntários, convocados através de um grupo de WhatsApp, e conta com quase 100 integrantes.

“Todas as noites nós fazemos uma enquete que é respondida pelos voluntários. Dessa forma é que nos organizamos para o trabalho do dia seguinte. Acredito que, diariamente, circulam em torno de 40 a 50 voluntários no barracão da igreja. E o mais interessante é que todos os dias aparecem novos voluntários para ajudar”, comemora a advogada.

Assim como tem ocorrido em outras cidades gaúchas, Mariana conta que em Taquara também já foram encontradas peças de roupas ou calçados que, em razão do seu estado de conservação ou limpeza, precisaram ir para descarte.

“Recebemos muitas doações que não podem ser aproveitadas. Às vezes pelo estado de conservação, às vezes pelo tipo de roupa que é enviada, como jalecos de uniforme, uniforme hospitalar, etc. Muitas pessoas tem uma ideia equivocada sobre a doação de roupas, pensando que qualquer coisa pode ser entregue, como se fosse uma espécie de descarte”, analisa a voluntária de Taquara.

Mesma situação já foi, inúmeras vezes, vivenciada por Fernanda Branchine, administradora de empresas que trabalha atualmente com planejamento em comunicação, e que de 2014 a 2020 foi uma das organizadoras do “Brique da Apata”, ação que resultava no repasse de recursos destinados a causa animal em Taquara, e costumava arrecadar cerca de 30 mil itens por evento.

“Em absolutamente todos os briques que realizamos, cerca de 30 nesse período, nós trabalhávamos algumas horas, todas as semanas, selecionando doações e, no que diz respeito a roupas e calçados, cerca de 30% do que chegava de doações estava em boas condições para ser vendido. Como vendíamos roupas a R$ 1,00, R$ 5,00, e as peças muito boas custavam a partir de R$ 10,00, imagina uma doação tão avariada que não poderia ser comercializada por R$ 1,00?”, analisa Fernanda.

Brique da Apata, realizado em dezembro de 2019, na Rua Coberta, em Taquara

Nesta ação, que também aceitava itens de decoração, brinquedos e outros objetos em geral, o maior tempo de dedicação dos voluntários era para dar destino ao “descarte dos outros”, já que algumas pessoas mandavam “tudo aquilo que queriam se livrar”.

“Nós abrimos uma caixa, um dia, com louças, em que um dos pratos estava com farelos de pão e um dos copos estava com um restinho de suco de laranja. Parecia que a pessoa tinha recolhido a mesa do café sem lavar a louça, separando tudo para doar. Também recebemos brinquedos como esse da foto, a boneca com o rosto riscado de canetinha hidrocor, o corpo todo rasgado e o enchimento caindo”, relembra a voluntária de Taquara.

Em ambos os brechós, os voluntários chegam a ficar expostos a condições bem insalubres, já que acabam manuseando roupas e calçados estragados ou sujos. Itens que, na maioria das vezes, acabam indo para o lixo.

“Quando possível, nós deixamos essas roupas de lado para um reaproveitamento posterior. Algumas dessas peças estão sendo enviadas para confecção de colchas de retalhos, para o Centro Espírita Irmã Dalva, ou enviados para fazer cobertas para cães. Enfim, estamos procurando um destino para essas roupas que não servem para as vítimas”, reforça Mariana.

Essa atitude tomada por algumas pessoas, de se desfazer de roupas e calçados estragados como forma de doação, é tão revoltante que amigos e conhecidos da Fernanda pediram que ela gravasse um vídeo, divulgado nas redes sociais, no link https://www.instagram.com/reel/C6ukorBrIg6/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==, onde ela relata sua experiência e orientando a população sobre a forma correta de doar esses itens.

“A dúvida que fica é: por que as pessoas guardam essas coisas nas suas casas? Tudo que elas doam estava com elas antes: as roupas, calçados e objetos estragados, avariados, mofados, contaminados. Esse descaso que elas têm com os outros começa com uma falta de autorrespeito por manter essas coisas na vida delas”, analisa a voluntária.

Mariana, assim como Fernanda, explica que, em primeiro lugar, as pessoas devem doar roupas limpas e em bom estado de conservação, até para facilitar o trabalho dos voluntários que precisam organizar um grande volume de material no menor tempo possível.

“Quando as roupas são enviadas de forma organizada, podem ser dividas em gênero masculino, feminino e infantil. O par de calçados pode ser amarrado, ou envolto em uma fita adesiva, o que facilita muito o trabalho de quem está trabalhando como voluntário. Por fim, uma doação bem organizada demonstra carinho e empatia com quem está recebendo aquele item. Se para o doador não serve mais, para aquelas pessoas que receberão fará muita diferença”, reforça Mariana.

E Fernanda complementa: “Talvez fosse importante quem doa pensar: Essas peças que você separou para doação, você as vestiria amanhã e faria tudo que precisa fazer no seu dia sem se sentir envergonhado? Se a resposta for não, melhor não doar. Uma pessoa necessitada de doações de roupas e calçados precisa de peças boas e práticas, peças que ela possa vestir e ir fazer seus afazeres: trabalhar, levar os filhos na escola, ir ao mercado. Não é porque alguém está necessitando de doações que essa pessoa vai usar trapos, roupas manchadas e furadas, e nem vestidos de festa e sapatos de salto”.

Doações de roupas aos atingidos pela enchente em Taquara

Em Taquara, o recebimento de doações e distribuição de roupas e calçados aos atingidos pela enchente estão sendo centralizadas no salão da Paróquia Senhor Bom Jesus, localizada na Rua Júlio de Castilhos, 2345, no Centro da cidade.

Após a triagem, os voluntários organizam as peças por tamanho e montam os kits, por gênero e tamanho, composto na sua maioria por duas mudas de roupas.

Nas roupas infantis, normalmente, são enviadas duas mudas de verão e duas de inverno. Já os sapatos e roupas íntimas são entregues separadamente.