Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 5 de novembro de 2010 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Hospital e os “senhores das palavras”

Lendo o livro “Em outras palavras”, de Lya Luft , deparei com a crônica “Senhores das palavras”. Qual será a ligação desse texto com o Hospital de Caridade? Pois lá dizia assim: “Sou dos que optam pela palavra sempre que é possível. Olho no olho, às vezes mão na mão ou mão no ombro: vem cá, vamos conversar? Nem sempre é possível. Mas, em geral, é melhor do que o silêncio crispado e as palavras varridas embaixo do tapete.”
Durante as últimas semanas, o que mais se ouviu foram palavras referentes ao leilão do nosso hospital, o único que resta dos três que havia em nossa cidade. As palavras ecoavam dos jornais da região, nas rádios locais e elas vinham também das bocas mais variadas, ou seja, desde governantes ao mais humilde dos munícipes de Taquara, uns garantindo de que nada aconteceria que pudesse deixar a população preocupada.
Entretanto, a bomba estourou, e foi com muita indignação e tristeza que fiquei sabendo pela internet que o Hospital de Caridade havia sido arrematado pela bagatela de 600 mil reais. Que palavras são essas ditas ao vento, em quem acreditar numa ocasião dessas?
Lembrando ainda da crônica da Lya: “A palavra faz parte da nossa humana essência: com ela nos acercamos do outro, apaziguamos, ferimos e matamos. Com a palavra, seduzimos o leitor num texto, numa palavra liquidamos: negócios e amores.” Será que palavras ininteligíveis foram pronunciadas com o firme propósito de deixar a população acreditando que estava tudo sob controle?
Pois é, minha gente, mais uma vez estamos vivendo um caos na saúde taquarense. Um impasse desalentador, justo num dos pontos mais relevantes de campanhas eleitorais: saúde, saúde e saúde para todos. Será?
Hoje já se fica sabendo de que pessoas da comunidade estão se mobilizando para buscar alternativas que possam mudar esse quadro atual, pessoas essas, que trabalham solidariamente, sem vínculo político algum, simplesmente, com o intuito de ajudar uma comunidade tão carente por um espaço de extrema necessidade a todos: um hospital!
Palavras devem ser muito bem pensadas antes de serem levadas a público, pois elas trazem expectativas, esperanças e, de repente, o que se vê é um falatório sem dono, ninguém querendo assumir coisa nenhuma, achando melhor se eximir de culpas ou responsabilidades.
Esperemos que essa situação criada voluntária ou involuntariamente seja solucionada o mais rápido possível, para não ouvirmos mais uma vez algumas palavras tão conhecidas por nós: “Taquara, a cidade do lá tinha isso, lá tinha aquilo.”
E, para encerrar, deixo aqui o final da crônica “Senhores das palavras”: “Viemos ao mundo para dar nomes às coisas, senhores delas ou enganados através delas quando mal-usadas, servos de quem as manipula contra nós.”
Clair Santos Wilhelms
– Professora –

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