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Esta postagem foi publicada em 19 de novembro de 2010 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Tiririca

Do “Meu livro de citações” – Regra de ouro das prefeituras: criar avenidas perfeitas e enchê-las de obstáculos para impedir que os veículos usufruam dessa perfeição.

TIRIRICA
Pois continuo a escrever sobre o recente evento político que abalou a nação. Melhor seria dizer um dos eventos, porque da vitória da presidenta já tratei. Contudo, o nosso outubro teve outras revoluções, além de conduzir a primeira mulher ao comando executivo do Brasil. Entre elas, a eleição de Tiririca como deputado federal, granjeando a segunda maior votação jamais conquistada para esse cargo.
Escândalo? Pode ser, mas não é o primeiro “analfabeto” a ser eleito democraticamente. Registrei entre aspas, porque não tenho certeza quanto à falta de alfabetização do palhaço, mas, quanto à do outro no qual estou pensando, dessa eu tenho certeza definitiva. Lembro-me do Cacareco, um rinoceronte eleito vereador em São Paulo em 1959, superando todos os outros candidatos. Vocês podem dizer: aquilo foi uma brincadeira! Concordo, a gente brinca com coisas bem sérias, não é? E essas brincadeiras com analfabetos (ou sêmi – os alfabetizados entenderão o acento circunflexo), têm perpassado a nossa história política.
Não vou defender o analfabetismo. Isto seria estupidez, pois, profissionalmente, sendo professor e cronista, preciso de leitores. Se as pessoas não lerem, perco meus clientes. Sim, clientes. Não sejamos inocentes a ponto de acreditar em anjinhos cantando cada vez que alguém lê. A leitura é absolutamente prática. Ela serve para transmitir mensagens quando emissor e receptor não estão frente a frente. Entretanto, não podemos esquecer, um dos baluartes da filosofia ocidental, Sócrates, desdenhava da escrita e, consequentemente, da leitura, classificando-as de degradadoras da memória (felizmente, Platão e Xenofonte escreveram muito sobre ele).
Redijo estas palavras porque sinto alguma confusão no ar. A bola da vez é o Tiririca. Estamos brigando para definir se ele sabe ler e escrever. Se for verdade que não sabe, estará, então, fazendo igual ao irônico filósofo: usando com muita habilidade a memória, aquele bem tão louvado pelo grego. Quando se argumenta a respeito da exigência legal por candidatos alfabetizados, provavelmente também se estabelece algum parâmetro para medir esse conhecimento. E já será um ato de discriminação para com os disléxicos, pois eles estariam eliminados da corrida democrática, embora existam leis promovendo a inclusão de pessoas com necessidades especiais.
Penso que a não aceitação do Tiririca está misturando a vida real com o xoubiz. Quem poderá afirmar que o deputado Francisco Everardo Oliveira Silva fará mais bobagens do que os macacos velhos da política? E quem pode afirmar que esse pessoal tão indignado com os eleitores do novel representante sabe escrever de maneira aceitável?
Leitura (barbadinha) e escritura (imensamente mais complexa) têm níveis surpreendentes. Isso me faz parodiar a letra de um samba do Bezerra da Silva: “se gritar ‘pega ladrão’, não fica um, meu irmão”! É só substituir “ladrão” por “analfabeto” e o bochincho está feito.
Eu gostaria muito de ler alguns textos do promotor que está insistindo tanto no assunto só para ver seu nível de escrita.

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