
Quando Maria dos Santos de Oliveira nasceu, em 27 de novembro de 1918, a Primeira Guerra Mundial havia acabado há 16 dias. A Gripe Espanhola, iniciada no mesmo ano e que infectou cerca de um terço da população mundial, começava a se espalhar pelo mundo, inclusive vitimando o presidente Rodrigues Alves. A economia brasileira estava voltada para a exportação de café, principal produto do país. Em Taquara, a iluminação pública era feita a querosene, salvo na Rua Júlio de Castilhos e na Praça Marechal Deodoro, que dispunham de luz elétrica fornecida pela firma A. Lehnen & Cia.
Aos 106 anos completados nesta quarta-feira (27), dona Maria, nascida em Palmeira das Missões, no norte gaúcho, atravessou as principais mudanças sociais e culturais que marcaram o século XX. Dessa jornada, 21 anos foram vividos em Taquara, para onde se mudou com o marido já falecido no começo dos anos 2000.
A simplicidade de Maria, que mantém uma rotina ativa e equilibrada, parece ser o segredo da sua vitalidade. Ela acorda cedo, toma seu banho e, em seguida, desfruta de um café da manhã tranquilo, acompanhado em seguida de um chimarrão. Antes que “o sol esquente demais”, sai para fazer caminhadas curtas pelo bairro Empresa, onde mora com uma das filhas.
“Depois do café, fico de ‘varde’. Dou uma passeada nas vizinhas. Caminho um pouco pra não ‘encarangar’ os nervos, né? Antes que esquente muito o sol, já volto pra casa”, relata.
Se hoje dona Maria “fica de varde”, é porque dedicou uma vida ao trabalho. “Comecei ainda criança, e nunca soube o que é brincar. Precisei ajudar a família depois que minha mãe morreu”, recorda.
Completamente independente para se deslocar e fazer suas atividades, ela não tem fórmulas milagrosas que justificam sua longevidade. Não citou dietas, nem grandes exercícios e tampouco fez discurso motivacional. Com mais de um século de sabedoria, ela acredita que o segredo para viver tanto tempo está em tratar bem as pessoas e cultivar a bondade.
“É tratar bem as pessoas, ser bom com o avô e com a avó, que ajudaram a criar também, né?”, aconselha. Ela reforça a importância de fazer o bem, lição que vem passando para gerações de familiares: “Aconselho a fazer as coisas bem feitas e não fazer mal para os outros”.
Para ela, a empatia é essencial: “O que nós queremos para o nosso corpo, temos que querer para os outros também”. E acrescentou: “também temos que fazer aquilo que nos faz bem”.
E o que faz bem a dona Maria?
“Descansar e viver com o espírito sossegado”, revela.

Mas mesmo o sossego requer disciplina e, para isso, o sono de Maria é regrado. Nada de sonecas à tarde, por exemplo. “Eu gosto de ir pra cama de noite. A cama é pra gente deitar e dormir”, conta ela, que vai se recolher pouco tempo depois que a noite começa a cair.
Ela relata nunca ter tido grandes problemas de saúde. “Nunca baixei hospital e criei meus três filhos com saúde, graças a Deus”. Também nunca deixou de se vacinar. “Fiz todas durante a pandemia”.
A fé, aliás, tem um papel central na vida de Maria, e o compromisso com a espiritualidade é uma prioridade. “O que mais me preocupo é servir a Deus. De poder ir na igreja e servir a Deus, porque eu sei que o dia que Jesus vai me chamar está próximo”.
A julgar pela vitalidade de dona Maria, esse dia deve demorar a chegar.



