
Em um cantinho de Taquara, uma pequena vinícola está colocando o Brasil no mapa dos vinhos naturais. A Vinhos da Rua do Urtigão, comandada pelo casal Rubem e Valéria Kunz, alcançou um feito inédito: tornou-se a primeira vinícola brasileira a participar da última edição da Raw Wine, a maior feira internacional de vinhos orgânicos, biodinâmicos e de baixa intervenção do planeta, ocorrida em Nova York nos dias 11 e 12 de novembro.
Localizada nos fundos da residência da família Kunz, a vinícola se caracteriza pelo compromisso com práticas sustentáveis e pela qualidade de seus produtos. E foi justamente esse diferencial que chamou a atenção da organização da Raw Wine, que reúne os principais nomes do setor em eventos realizados ao redor do mundo.
Fundada em 2015, a vinícola nasceu do sonho de Rubem, médico cardiologista, que, após mais de 30 anos de apreciação e estudo do vinho, finalmente teve a oportunidade de fermentar suas próprias uvas. Ele conta que a parceria com Alfredo e Silvia Reich, da propriedade orgânica Güntherland, em Araricá, foi o ponto de partida para a produção de seu primeiro vinho, batizado de Isabele, em homenagem à neta do casal de amigos.
“O nosso primeiro vinho foi um momento emocionante. Em parceria com nossos amigos Alfredo e Silvia, que produzem uvas orgânicas em sua propriedade, tivemos a chance de fermentar o mosto das uvas que eles nos cederam. Foi um momento de grande emoção e entusiasmo”, relembra Rubem.
O nome Vinhos da Rua do Urtigão foi escolhido em referência à estrada que dá acesso à propriedade, conta Rubem. Durante a comemoração do primeiro vinho, Rubem foi provocado por Alfredo: “E agora que tens tua ‘vinícola’, como vai se chamar?”.
A ideia de nomear a vinícola com base no nome da estrada local surgiu espontaneamente, explica.
“Sempre gostei do modo como os portugueses e franceses nomeiam seus vinhos de acordo com os lugares. Perguntei como era o nome da estrada onde a propriedade ficava, e me responderam: Rua do Urtigão. Então, ‘Vinhos da Rua do Urtigão’ nasceu ali, fruto de uma cumplicidade e amor pela cultura do vinho”.
A vinificação, segundo Rubem, segue o método natural, com fermentação espontânea pelas leveduras nativas, e sem adição de produtos químicos, exceto pequenas doses de dióxido de enxofre. O processo também exclui a clarificação e a filtração.
A vinificação natural, segundo Rubem, visa expressar ao máximo o terroir, ou seja, as características da variedade de uva, do solo, do clima e do trabalho do vinicultor. “Procuro a máxima expressão do terroir. Os vinhos naturais são sinceros, sem maquiagem, e refletem o resultado de um trabalho que respeita técnicas fundamentais, criando uma obra única e irreproduzível”, explica.

A paixão de Rubem pelo vinho natural também está relacionada à influência de grandes nomes da viticultura, como os franceses Jules Chauvet, Marcel Lapierre, Nicolas Jolie e Pierre Overnoy, que, nas décadas de 1960, buscavam criar vinhos mais expressivos e menos padronizados do que os industriais. Para Rubem, essa busca se conecta com um movimento global por alimentos mais saudáveis e por uma agricultura orgânica e sem pesticidas.
A participação na Raw Wine
Em 2011, a francesa Isabelle Legeron criou a comunidade Raw Wine, um movimento dedicado aos vinhos naturais. A Raw Wine cresceu rapidamente e hoje conta com mais de 3.000 produtores de todo o mundo. Em 2023, Rubem Kunz teve a oportunidade de se apresentar para a comunidade e, após atender a uma série de exigências técnicas e analíticas, foi aceito para participar das feiras.
A plataforma reúne um clube de vinhos, uma loja online e organiza feiras em oito cidades ao redor do mundo, incluindo, além de Nova York, Londres, Los Angeles, Toronto, Montreal, Tóquio, Copenhague, Berlim e Paris.
“Desde dezembro de 2023, estou habilitado a participar dessas feiras, e foi uma grande conquista”, comemora Rubem.
Rubem contou como foi a experiência de representar o Brasil pela primeira vez em um dos maiores eventos de vinhos naturais do mundo.
Entre 120 vinícolas de diferentes partes do globo, a participação brasileira despertou curiosidade e abriu portas. “À direita, japoneses; à esquerda, canadenses; nas costas, georgianos e sicilianos; à frente, americanos e espanhóis. Foi um encontro de culturas e paladares”, detalha Rubem.
Os vinhos brasileiros receberam excelente receptividade, surpreendendo um público acostumado a associar o país ao café e à cachaça. “O mundo não sabe que o Brasil faz vinho, mas saímos de lá com muitas amizades e a certeza de que, no próximo ano, estaremos em outra feira”, celebra.


