Cultura e Lazer Geral

A história escondida dos campos de concentração no Brasil: entrevista com Ana Baldo, autora de ‘Tem que Fazer uma Cruz pra Ela’

Obra finalista do Prêmio Literário de 2024, promovido pela Academia Rio-Grandense de Letras, resgata um capítulo apagado da história brasileira ao narrar a tragédia humanitária no Ceará durante a seca de 1932
(Foto: Ana Baldo/arquivo pessoal)

Ao escrever o livro ‘Tem que Fazer uma Cruz pra Ela’, a escritora e historiadora taquarense Ana Baldo abordou um tema tão espinhoso quanto pouco conhecido: os campos de concentração criados no Ceará durante a seca de 1932. Esses locais serviam para confinar pessoas que fugiam da estiagem em busca de refúgio na capital, Fortaleza, uma das páginas mais sombrias e negligenciadas da história brasileira.

Finalista na categoria Romance do Prêmio Literário de 2024, promovido pela Academia Rio-Grandense de Letras, o livro tem chamado a atenção do público e da crítica pela forma como combina ficção e história para dar voz a uma realidade cruel, hoje em dia agravada pelas mudanças climáticas. A entrega dos troféus aos vencedores será dia 12 de dezembro, às 19h, em cerimônia no auditório da antiga livraria Cultura, no Shopping Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80).

Em entrevista à Rádio Taquara, Ana, de 38 anos, autora com obras publicadas pela Editora Patuá e O Grifo Editora, compartilhou suas motivações, o processo criativo e o impacto de sua obra. “Tem que Fazer uma Cruz pra Ela” se soma ao conjunto de trabalhos da escritora que exploram temas como desigualdade social e a segregação da população marginalizada, consolidando sua escrita como uma forma de denúncia e resistência.

Um passado silenciado

Questionada sobre a pouca visibilidade histórica dos campos de concentração para retirantes no território cearense nos anos 1930, Ana foi categórica ao afirmar que houve um apagamento deliberado.

“Muitas vezes, ao tratarmos do tema dos campos de concentração nos deixamos levar aos campos nazistas. Mas no Brasil, tivemos essa experiência antes mesmo da Segunda Guerra Mundial. A primeira experiência de campos de concentração para aprisionar retirantes no Ceará se deu ainda em 1915, tema tratado na obra ‘O Quinze’, de Rachel de Queiroz. Em 1932, a experiência aumentou a ponto de termos sete campos no decorrer da linha férrea que cruza o estado do Ceará, campos esses que foram construídos de modo que pudessem ser destruídos sem deixar vestígios assim que a seca acabasse. O único campo que tem vestígios desse acontecimento é o de Senador Pompeu, que teve suas ruínas tombadas como patrimônio histórico”, explica a autora.

Sítio histórico localizado em Senador Pompeu: local serviu como campo de concentração para as vítimas da seca de 1932 (Foto: WikiCommons)

Ana atribui essa varredura social à burguesia e ao governo da época, que não queriam associar o estado à miséria e à violência. “A história oficial não retrata essa parte de nossa memória nacional. O tema começou a surgir recentemente através de ativistas cearenses que tinham e tem o propósito de trazer à tona essa verdade histórica, aos quais eu me junto na tentativa de revelar esses fatos. Então, sim, esse episódio foi propositalmente apagado da história oficial”.

No livro, o protagonista Josué é um personagem fictício que vive experiências semelhantes às narradas por sobreviventes dos campos. “A partir dos depoimentos dos sobreviventes e de seus familiares, e da leitura do que já foi escrito sobre o tema — ainda muito pouco, infelizmente —, busquei criar personagens que revivessem, de forma ficcional, o que foi documentado como fato histórico”, conta Ana.

A autora, que também é historiadora, destaca que a pesquisa foi fundamental para trazer realismo à obra, buscando reconstruir a vivência dos retirantes com respeito e fidelidade histórica, mas sem perder a liberdade literária. A motivação principal foi o desejo de dar visibilidade a um tema obscuro e silenciado da história brasileira.

“Creio que, acima de tudo, o que me motivou foi o desejo de dar luz a esse tema escondido de nossa história. Como historiadora, entendo que nosso papel é acima de tudo trazer à tona a verdade, não absoluta, mas com o que conseguimos recuperar como fontes históricas. Então, me unindo aos ativistas que estão nessa mesma luta, acho de suma importância que a sociedade tenha conhecimento dessa realidade dura e cruel que marcou nossa história”.

Uma obra política

Ana não hesita em classificar ‘Tem que Fazer uma cruz pra Ela’ como uma obra política. “Tudo é político. Um livro que denuncia barbaridades cometidas pelos governantes da época traz em si essa função. Escrevo sempre buscando, através da literatura, dar voz aos invisíveis do sistema, aos excluídos, aos apagados da história; tentando sempre utilizar a escrita como forma de denúncia da desigualdade e das injustiças sociais”, ressalta.

Segundo ela, a recepção ao livro tem sido positiva, especialmente nas redes sociais.

“Nas redes tenho recebido retornos positivos sobre a obra, principalmente como denúncia dos campos de concentração, da segregação da população pobre, da crueldade do governo da época. Poderia dizer que o livro tem sido visto de forma positiva pelos leitores e leitoras, com destaque para a ‘emoção’ sentida por eles/as ao conhecerem o tema que serve de cenário para a obra, por muito tempo escondido”, revela.

Combustível

A indicação ao prêmio da Academia Rio-Grandense de Letras foi recebida com entusiasmo.

“Acredito que ser uma das finalistas de um prêmio sério e com tradição como o da Academia Rio-Grandense de Letras é uma forma de reconhecimento da obra. Estar ao lado de dois grandes nomes da literatura, vencedores e finalistas de outros grandes prêmios nacionais, com meu livro de estreia (o primeiro que escrevi na vida) é de fato algo que marca a gente”.

Ana acrescentou que considera a indicação como um impulso para seguir escrevendo.

“O prêmio é um reconhecimento do nosso trabalho, é a possibilidade de chegar aos leitores/as e os fazer refletir sobre nossa realidade, e é combustível para que, apesar do mercado editorial ser complexo, não desistamos da literatura nacional”.