
No consultório, elas falam sobre mulheres, pré-natal e nascimentos. Na sala de parto, dividem a luz branca do foco cirúrgico, instrumentos e histórias. Fora desses ambientes, compartilham o amor pelo mesmo “pacotinho” de pouco mais de 50 centímetros e quatro quilos.
Márcia Karpss, 61, é ginecologista e obstetra, com quase 40 anos de atuação em Taquara. Marília Karpss, 32, trabalha nas mesmas funções desde 2018. Mãe e filha, colegas de profissão, parceiras na jornada de trazer vidas ao mundo. Inclusive a da pequena Teresa, primeira neta de Márcia, filha de Marília, nascida há 40 dias.
A história da mãe e da filha transita entre o íntimo e o profissional, entre os primeiros choros na maternidade e os renascimentos simbólicos que envolvem cada parto. Já participaram juntas de vários deles ao longo dos últimos quatro anos. E essa dobradinha, contam, emociona não só elas, mas também as pacientes.
“Elas acham lindo. Especial. Ainda mais por Taquara ser uma cidade pequena. A gente acaba atendendo pessoas com vínculos com a nossa família. Depois, quando nos reencontramos, vira uma festa: ‘Olha quem te tirou da barriga da mamãe!’”, conta Márcia, que, predestinada que é, nasceu num Dia das Mães.
Embora Márcia seja referência para tantas mulheres como obstetra, quando chegou sua vez de ser mãe, Marília preferiu que sua mãe não desempenhasse um papel profissional, mas tão somente afetivo. “Eticamente não é proibido, mas não é recomendado. Obstetrícia pode ir do maravilhoso ao caos em segundos. E eu queria que a minha mãe fosse só avó naquele momento. Que ela não tivesse que racionalizar nada, tomar decisões difíceis”, conta a médica.
O parto de Teresa aconteceu em Porto Alegre, com uma obstetra escolhida pela filha e que, coincidentemente, foi colega de faculdade de Márcia. “Cheguei no consultório me apresentando e ela disse: ‘Nada, Marília, te conheço desde a vida intrauterina’”, lembra, rindo.
A pequena Teresa passou a gestação inteira sentada, de bumbum para baixo, conta a mãe, uma posição que contraindica o parto normal. E mesmo sendo uma médica que defende e estimula o parto vaginal, Marília se viu diante da necessidade de uma cesárea.
“Essa guriazinha já dava mostras que seria uma bela ariana, mandona desde o início”, brinca. “Ela ficou sentadinha a gestação inteira, uma das contraindicações para parto vaginal. Já mostrando que vai mandar na mamãe”.
Nesse cenário, lá estava Márcia, dessa vez sem bisturi, apenas com o coração: “Fiquei na posição de avó”, lembra.
A história das duas simboliza tanto a passagem de tempo quanto a permanência do cuidado. “A medicina muda, as técnicas mudam. A gente opera diferente, mas se completa”, observa Marília.

Marília destaca a força emocional do momento do parto, a vulnerabilidade da mulher, e a importância do respeito às escolhas da paciente. Mas também menciona a conexão geracional que se fortalece nas experiências compartilhadas com a mãe, não apenas como família, mas como equipe médica.
“É surreal, às vezes, estar operando com ela. Imagino que, no início, tenha sido mais difícil pra mãe, ver a filha tomando frente, sendo responsável pelas decisões. Mas nos respeitamos muito”.
Dos jalecos à vivência de mãe e avó
Quando duas obstetras se veem no centro de uma experiência tão íntima quanto o nascimento de um bebê na própria família, o que era rotina profissional se transforma em descoberta pessoal. Márcia, agora avó, e Marília, vivendo a maternidade pela primeira vez, compartilham novas formas de cuidado.
“Tem sido uma experiência muito bonita. Mas a gente meio que abstrai a parte profissional, porque é algo único, novo. Cada criança é uma criança, cada nascimento é um nascimento, e a gente precisa encontrar a melhor forma de lidar”, diz Márcia. “Estou tentando ser uma avó obediente, seguindo as orientações da filha. Cada época tem suas rotinas, a coisa mudou desde quando eu tive os meus filhos. Então a gente vai ajudando como pode”.
Marília está vivendo uma “especialização existencial” no que diz respeito a bebês.
“Para mim, também tem sido uma experiência bem diferente, estar desse lado da maternidade. Estamos mais acostumadas a orientar, a direcionar… E agora, participar desse lado é muito interessante. Desafiador, na verdade”, conta.
Para ela, teoricamente, é mais fácil ser médica ginecologista obstetra do que ser mãe.
“Estou aprendendo, e a vovó nos dá um suporte enorme, nos ajuda muito, respeita bastante. E é uma vovó trabalhadora! É uma realidade diferente do que se vê por aí, das avós aposentadas que ficam em casa com os netos. Ela se vira nos 30 para estar presente e participar”.
O portal da maternidade
Marília conta que trabalhou com a barriga imensa, vivendo uma experiência um tanto quanto simbólica. “Fiz alguns partos com a Teresa na barriga, e era muito especial”.
Segundo ela, as pacientes amavam saber que a médica estava ali, igualmente grávida, trazendo ao mundo o filho delas. “Não esqueço de uma que, em pleno período expulsivo [a segunda fase do trabalho de parto], olhou pra mim, sentada no chão na frente dela, e disse: ‘Marília do céu, tu aí, grávida, de barrigão… até quando vai conseguir fazer isso?’”.

Para Marília, o nascimento, seja por cesárea ou parto normal, é sempre um portal. “Depois dele, a gente não é mais a mesma pessoa. É um momento muito vulnerável na vida da mulher. E é isso que busco respeitar: o que faz sentido pra cada uma. A via de parto não define quem ela é. O que define é quem ela vai ser como mãe”.
A convivência profissional entre mãe e filha é também uma espécie de espelho do tempo. “A medicina muda”, reconhece Marília. “Técnicas mudam, condutas evoluem. Mesmo assim, operam em harmonia. Se complementam”.
Para Márcia, foi um tanto quanto simbólico no começo: ver a filha, que até não muito tempo atrás era um bebê no seu no colo, conduzindo procedimentos, tomando decisões. Mas essa inversão de papéis se transformou em orgulho. Para ambas.
“Agora, inclusive, durante a minha licença-maternidade, minha mãe está me dando suporte, assumindo algumas das minhas pacientes para que elas não fiquem desassistidas”.
A utopia da perfeição
Com a experiência de quem equilibrou por décadas a rotina intensa de plantões com a criação dos filhos, Márcia fala com serenidade sobre as cobranças impostas às mães, especialmente àquelas que trabalham fora. Para ela, não existe modelo ideal de maternidade, e sim tentativas honestas de fazer o melhor possível dentro das próprias condições.
“Eu sempre disse que não existe uma fórmula única para viver a maternidade de forma plena. Não é porque a mulher trabalha que ela deixa de ser uma boa mãe. Eu falava para os meus filhos que trabalhava por prazer, e deixava claro que a minha ausência não era só uma necessidade financeira. Isso é importante, para que o trabalho não se torne um peso emocional na maternidade”.

E complementa que o mais importante é tentar ser a melhor mãe possível, dentro da realidade de cada uma.
“Não dá pra perseguir uma ideia utópica de perfeição. E quem trabalha fora e tem filhos, que não se culpe. Faça o seu melhor, porque vale muito a pena”.


