Do “Meu livro de citações” – A Polissemia e o
Contexto tiveram uma filha. Seu nome é Semântica.
INTERVENÇÕES
Houve, agora em novembro, adentrando dezembro, em Porto Alegre, um evento chamado “cowparade”. A “cowparade” (desfile de vaca) – não teve o nome traduzido, talvez pela conotação um tanto depreciativa da palavra vaca; talvez pelo fato de estar em inglês, e isso, para muitos, ser sinônimo de qualidade – mostra uma série de estátuas em resina, representando o pachorrento animal decorado por pintores das mais variadas escolas, transformando-o em quadros tridimensionais. Apesar de bonita, principalmente, pela quantidade de exemplares, é algo incompreensível. Isso é o que podemos chamar de uma intervenção.
Entre as bandeiras dos artistas estão, justamente, as intervenções. Intervenção é a colocação em cena de um acontecimento inesperado numa situação em que ele seria totalmente improvável. Por exemplo, temos as intervenções promovidas pelo pessoal de teatro. Nas cidades maiores, é comum a gente estar viajando nos ônibus urbanos quando, de repente, alguém começa a declamar um poema; ou, então, dois ou três elementos encetam um diálogo como se num palco estivessem e ali, no corredor do veículo, representam uma peça. Lembrem-se, também, daquele quadro televisivo “Os sombras”, em que as pessoas eram seguidas e imitadas por palhaços nas ruas das cidades, neste caso, sendo muito ridicularizadas.
Há, também, as intervenções pictóricas. Grafiteiros, ilustradores de muros e paredes estão sempre agindo. Não podemos esquecer as sonoras. Uma serenata é um bom exemplo. Serenatas são sempre inesperadas e feitas numa hora imprópria (como se houvesse hora própria para elas), interferindo em alguma coisa, geralmente no sono de alguém. Uma velha amiga me manda um emeio mostrando uma intervenção em um xópim de Buenos Aires, com cantores de ópera, abruptamente surgindo para uma apresentação; o Jornal do Almoço da RBS TV levou ao ar, há poucos dias, um esquete em que, no mercado público da capital, após a suposta desavença de um casal, um grande grupo o acompanha num número de dança.
Ultimamente, em nível mundial, há a intervenção do abraço. Vamos, calmamente, caminhando quando, repentinamente, somos abraçados. Poucos se negam a responder, mesmo não gostando da situação, pois, imagina!, um abraço é considerado o máximo de carinho entre duas pessoas (não consigo deixar de lembrar Judas).
Resumindo, e tentando assumir o pensamento artístico, depois das inúmeras explicações já ouvidas, intervenção tem o objetivo de provocar e fazer as pessoas pensarem através do choque, do inusitado. O “pensar” é meio vago, já que um pensamento é livre, e as pessoas podem pensar em qualquer coisa; logo o ato não atinge, necessariamente, o objetivo pretendido pelo interventor. A satisfação é sempre de quem o pratica; raramente de quem é intervindo.
Após essas considerações, estou seriamente preocupado. Quais seriam as reais intenções da intervenção vacum, já realizada em tantos lugares do mundo? E, por último, não seria um assalto ou a queima de um ônibus uma espécie de intervenção, já que acontece de imprevisto, choca as pessoas e as faz pensar, aqui sim, na mesma direção?


