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Com raízes no Vale do Paranhana, presidente do Cremers volta a Taquara e pede responsabilidade com a vida

Eduardo Neubarth Trindade, que tem laços familiares com o município, defendeu fortalecimento da atenção básica, criticou falhas estruturais e reforçou atuação do Conselho diante de denúncias na saúde pública
Presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade (Foto: Cremers/Divulgação)

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers), Eduardo Neubarth Trindade, esteve em Taquara nesta quinta-feira (22) para participar do Seminário Conjunto – Ética e Responsabilidades na Saúde Pública – Condutas de Médicos e Legisladores, promovido na Faccat em parceria com a Câmara de Vereadores de Taquara.

A passagem de Trindade pelo Vale do Paranhana teve também um sabor afetivo. Isso porque o médico tem laços profundos com a região: sua mãe nasceu em Taquara. Ainda na infância, o representante máximo do Cremers passou longas temporadas na cidade, onde também viveu por alguns meses na década de 1980. Até hoje, parte da família reside na região, entre Taquara, Igrejinha e Três Coroas.

“Tenho laços extremamente fortes aqui. Fui criado na região, porque minha mãe é natural de Taquara. Ela nasceu aqui enquanto minha avó estava visitando irmãs. Uma delas, inclusive, ainda mora na região, em Três Coroas, e tem 101 anos”, conta.

Em meio a uma atmosfera de memórias, Trindade conta que estar na cidade tem um significado pessoal afetivo.

“Minha mãe cresceu na Rua Tristão Monteiro. Passei muitos natais, feriados de Páscoa por aqui e, nos anos 1980, morei cerca de seis meses no município. Sempre estive retornando. Então, há forte conexão tanto com Taquara quanto com Igrejinha e Três Coroas. Ainda tenho tios e primos morando aqui. Inclusive, o local onde hoje funciona o museu era a casa do meu avô, próximo à prefeitura de Taquara”, conta Trindade.

E acrescenta: “Tenho memórias muito vivas daqui. Estar de volta, agora como representante de uma instituição, é uma emoção dupla”.

Entre lembranças de infância, Trindade revelou o que mais o encanta em Taquara.

“Taquara tem algo muito especial: a igreja católica de frente para a igreja evangélica. Isso, para mim, simboliza muita coisa. E o melhor sorvete do mundo está aqui também! Tenho laços afetivos profundos, e passar um tempo na casa da minha avó Adélia, que ainda está viva, é sempre especial. É muito bom estar de volta a essa cidade, que considero minha também”.

Avanços e desafios na saúde pública do Paranhana

Para o presidente do Cremers, o desenvolvimento da saúde no Vale do Paranhana tem sido marcado por avanços pontuais e retrocessos preocupantes. Ele lembra que Taquara já chegou a contar com três hospitais, número que hoje se resume a um, realidade que acompanha a dificuldade estrutural enfrentada por hospitais filantrópicos em todo o interior do Rio Grande do Sul.

Segundo Trindade, o peso da gestão da saúde pública recai majoritariamente sobre os municípios, que nem sempre têm fôlego orçamentário para manter a estrutura necessária. Ele defende o fortalecimento da atenção básica como caminho para evitar a superlotação nas emergências.

“O posto de saúde adequado é o que evita que o paciente precise buscar a emergência. Nossos dados mostram que mais de 70% dos atendimentos em emergências poderiam ser resolvidos na atenção básica. Isso ajudaria a diminuir a superlotação e evitar que casos mais graves passem despercebidos em meio à alta demanda nas emergências”, afirmou, destacando que o Cremers atua de forma preventiva, com fiscalizações e cobranças, para garantir que o atendimento primário funcione e reduza riscos à população.

Foco em mortes evitáveis

Diante dos protestos recentes em Taquara, motivados pela insatisfação da população com o atendimento em postos de saúde e hospitais, Trindade, afirmou que o Conselho está atuando no município por meio de fiscalizações preventivas.

“Nosso foco é apontar soluções antes que aconteçam tragédias, o que chamamos de mortes evitáveis”, destacou.

Trindade reforçou que nem todo desfecho negativo pode ser evitado, mas há casos em que a falha na estrutura compromete o resultado. “Se o paciente tivesse sido atendido no tempo certo, com acesso a exames adequados, o desfecho poderia ser diferente. Nessas situações, vamos atuar e investigar”.

Sobre o caso específico de Taquara, o presidente confirmou que a situação está sendo apurada. “A população precisa entender que esse processo exige tempo. Não se trata de culpar alguém de imediato, mas de investigar com rigor, confirmar os fatos e, se necessário, responsabilizar quem agiu com negligência, imprudência ou imperícia”.

O médico como “para-choque” do sistema

Ao ser questionado sobre como o Cremers avalia situações em que a população responsabiliza os médicos por falhas que, muitas vezes, são estruturais ou de má gestão, Trindade afirmou que o Conselho apura todos os casos que envolvem conduta médica, mas ressalta que a maior parte das queixas tem origem em problemas estruturais ou de gestão.

“Dois médicos para atender 200 pacientes em um turno de seis horas, profissionais sem especialização obrigados a atuar como especialistas, exames que não são realizados a tempo. Tudo isso compromete o atendimento”, exemplifica.

Segundo ele, o médico muitas vezes é o “para-choque” do sistema, sendo responsabilizado por falhas que fogem ao seu controle. “Quando há negligência, o Cremers age. Mas é preciso reforçar: a maioria dos problemas não se deve à má conduta, e sim à precariedade do sistema em que os profissionais estão inseridos”, pontua.