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“Saímos muito maiores”: campanha do Cimol pós enchente vira exemplo de educação com propósito social

Alunos e professores da escola técnica mobilizaram conhecimento técnico e solidariedade para ajudar famílias afetadas pelas enchentes, entregando mil móveis e deixando um legado de aprendizado e compromisso social
(Fotos: André Amaral/Rádio Taquara)

Ao apresentar a prestação de contas no final de maio, a Escola Técnica Monteiro Lobato (Cimol), de Taquara, concluiu a campanha solidária iniciada após as enchentes de 2024, que arrecadou R$ 388 mil e resultou na doação de mil móveis a famílias do Vale do Paranhana. A ação, realizada entre os dias 2 de maio e 22 de julho do ano passado, mobilizou alunos, professores, ex-alunos e voluntários em uma ampla rede de apoio às vítimas, por meio de Assistências Sociais Municipais, ONGs e projetos sociais.

O encerramento oficial da campanha aconteceu em 28 de maio, com uma cerimônia na escola que apresentou os resultados da mobilização e reuniu autoridades dos municípios de Taquara, Igrejinha e Três Coroas, além de representantes do Corpo de Bombeiros Voluntários e da comunidade.

A diretora do educandário, Kelly Barbosa, avaliou o resultado geral da campanha como positivo:

“O Cimol encerra a frente técnica de ações contra a enchente de 2024 com um balanço bastante positivo. A comunidade contribuiu com mais de 380 mil reais e nós conseguimos devolver uma resposta positiva depois da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul”, diz Kelly.

Impacto pedagógico

A diretora ressaltou o impacto pedagógico e humano da iniciativa, destacando o desenvolvimento técnico dos estudantes e o papel da educação profissional na resposta à tragédia:

“Eles saem dessa campanha muito maiores, não apenas pelo que fizeram, mas pelo que desenvolveram tecnicamente e aplicaram de forma prática e real”.

Prédio onde foi instalada a marcenaria de campanha segue utilizado pelos alunos

A campanha contou com a atuação de três cursos técnicos: o curso de Móveis, que esteve envolvido desde os primeiros dias após a enchente; o curso de Eletrônica, que trabalhou no conserto de camas hospitalares; e o curso de Mecânica, que auxiliou na produção dos móveis.

“A estrutura das camas metálicas, por exemplo, foi feita pelo curso de mecânica. O pessoal da mecânica criou as estruturas, e o curso de móveis fez os acabamentos. Essas camas foram doadas aos Bombeiros Voluntários de Igrejinha, e o recurso para produzi-las veio de um brechó solidário feito por voluntários em Igrejinha, que arrecadou cerca de R$ 5 mil. Se fosse para comprar camas prontas com esse valor, não daria. Mas com o que arrecadamos, conseguimos montar camas resistentes, todas metálicas, que permanecem mesmo em caso de nova enchente”, relata Kelly.

O legado? Capacidade de resposta da instituição frente a desastres naturais.

“O interessante é que nossos estudantes vivenciaram esse projeto durante a formação técnica. Atender a uma catástrofe como essa acaba sendo também parte do aprendizado”, observa a diretora. “Infelizmente, sabemos que tragédias assim podem se repetir, então isso desenvolve um senso de resiliência, além do preparo profissional, eles saem daqui com a capacidade de responder a situações reais. Saímos desse processo fortalecidos, com a certeza de que a educação profissional tem o poder de dar respostas concretas à sociedade”.

Além das doações já realizadas, um saldo restante será utilizado para a produção de móveis destinados a uma família que perdeu tudo em um incêndio no Morro da Cruz:

“Hoje nós temos um saldo de aproximadamente R$ 7.400, que será destinados para a família de um aluno nosso que perdeu toda a sua casa, todos os seus bens”.

Reconstrução

A diretora considera que a campanha deixou uma marca profunda na formação dos jovens:

“Esse conhecimento e a perspectiva de solidariedade conseguem contribuir de maneira construtora, reconstrutora para a nossa região”.

Segundo Kelly, a campanha foi conduzida por uma equipe de profissionais altamente engajados. O professor Marlon Rosano Lazzaretti, coordenador do curso de móveis, liderou a organização das ações. A então diretora da escola, professora Karine Kersting, teve participação decisiva na mobilização da estrutura escolar. Também contribuíram ativamente o professor Fábio Gritte, do curso de mecânica, e a professora Priscila Kasper, da eletrônica. Já o professor Cândido de Farias, presidente do CPM na época, ofereceu apoio fundamental durante toda a campanha.

Entre os parceiros, Kelly destaca a família Jung, que cedeu o prédio utilizado para a instalação da marcenaria de campanha, e a ONG Moradia e Cidadania, composta por funcionários e aposentados da Caixa Econômica Federal, cuja atuação foi fundamental no início da mobilização. Presente em todo o Brasil, a ONG teve participação ativa também nas ações de reconstrução após as enchentes.

Diretora Kelly Barbosa

E acrescenta:

“Para nós foi uma oportunidade de crescimento e sentimos muito orgulho. Apesar do trabalho voluntário ser algo abnegado, ser anônimo, fazer parte desse processo junto com as entidades, com as famílias, com toda a comunidade que se fez presente neste momento, é um motivo de bastante satisfação”.

Para a diretora, fica o aprendizado e a certeza de que, se houver uma nova tragédia, a escola possui uma rede de apoio estruturada e capacidade de resposta.

“É uma experiência estranha, porque a gente se sente feliz pela resposta que conseguimos dar, por termos feito a diferença. Mas claro, não é uma felicidade pela tragédia em si, é o aprendizado que fica. Como escola, esse projeto serviu para mostrar que, diante da dor, também se pode ensinar, aprender e transformar”.

Ações realizadas pela campanha

Além da arrecadação financeira, a iniciativa promoveu:

  • Coleta de alimentos, roupas, itens de higiene e limpeza
  • Doação de colchões, cobertores e utensílios domésticos
  • Mutirões de limpeza e organização
  • Consertos de eletrônicos e camas hospitalares
  • Produção de móveis sob medida
  • Apoio ao Hospital de Três Coroas e aos Bombeiros Voluntários de Igrejinha

Bens adquiridos e estrutura montada

Para viabilizar a produção dos móveis, foram adquiridos maquinários e insumos como:

  • Máquina CNC, compressor, tupia, esquadrejadeira, coladeira de borda
  • Painéis de MDF (837 de 18mm e 262 de 9mm), ferragens, dobradiças, puxadores
  • EPI’s, tinta, thinner, tubos metalon, cubas de inox
  • Serviços como frete, internet, limpeza, tele-entulho, energia, água, entre outros

Também foi cedido um prédio para instalação da marcenaria de campanha, onde atuaram 22 ex-alunos voluntários, com ajuda de custo total de R$ 26.040,00.

Estudantes do curso de design de móveis

Investimentos detalhados

A prestação de contas apresentou os seguintes grupos de investimento:

GrupoValor Investido
Compra de maquinário (CNC, compressor, outros)R$ 120.898,00
Compra de insumos e materiais (incluindo MDF e ferragens)R$ 102.813,71
Materiais para camas e balcõesR$ 54.310,80
Camas pré-moldadasR$ 14.430,00
Compra de ferramentas (furadeiras/parafusadeiras)R$ 19.784,04
Ajuda de custo voluntáriosR$ 26.040,00
Adequações no prédio cedido e afiação de ferramentasR$ 7.774,00
Fretes e logísticaR$ 3.746,83
Outros (internet, serviços diversos)incluso nos totais acima

Total investido: R$ 379.817,33
Arrecadação total: R$ 387.280,10
Saldo restante: R$ 7.462,77