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‘Entrelinhas’: Adriano Flesch estreia seu primeiro EP e revela o som que habita sua vida

Com influências que vão do erudito ao heavy metal, músico lança EP que mistura guitarra, violão clássico e experiências pessoais
(Foto: arquivo pessoal)

O violonista e guitarrista Adriano Flesch acaba de lançar ‘Entrelinhas‘, seu primeiro EP autoral, um trabalho que mergulha na diversidade musical que sempre orbitou sua vida. Com seis faixas instrumentais, o projeto traduz não só suas influências, mas também suas vivências. Tudo isso sem a necessidade de uma única palavra.

O conceito do EP nasceu do desejo de se apresentar ao público não apenas como intérprete, mas como compositor. “Sempre fui fã do instrumental. Mesmo nas canções, eu sempre prestei muita atenção às batidas, harmonias e misturas de sons e timbres. Ao longo da vida, absorvi estilos variados: pop, samba, axé, música tradicional, clássica, folk, heavy metal, coisas mais experimentais… E, naturalmente, isso aparece no que a gente cria”, explica.

O nome ‘Entrelinhas’ surgiu quase no apagar das luzes da produção, fruto de uma conversa com a esposa, a artista visual Pâm Dondé.

“Queríamos uma palavra que sintetizasse ou desse sentido ao álbum. Todas as músicas, apesar de instrumentais, têm títulos inspirados nas minhas vivências cotidianas, viagens, afetos, amores, desafetos, horas de estudos musicais. É como se eles deixassem, nas entrelinhas, o que o som e o clima da música querem significar. Aí a Pâm, brilhantemente, falou ‘Entrelinhas‘, e eu parei de pensar em outros nomes na hora”, conta, rindo.

Sem rótulos entre popular e erudito

A relação de Adriano com a música nunca se prendeu aos rótulos entre erudito e popular. Ele cresceu ouvindo de Roxette, Cyndi Lauper e Madonna ao pagode dos anos 90, passando pelo punk, funk, música brega, bandinha e música gauchesca. Ao mesmo tempo, desenvolvia uma paixão intensa por trilhas de filmes como Jurassic Park, composta e regida pelo icônico John Williams, orquestras e desenhos animados como Tom & Jerry e Looney Tunes, que frequentemente usavam peças clássicas em suas cenas.

Lançamento do EP ‘Entrelinhas no Centro Educacional Indio Brasileiro Cezar (Foto: arquivo pessoal)

Ao estudar violão com o músico taquarense Álvaro Vicente, falecido em 2021, mergulhou tanto no universo clássico quanto na MPB e no jazz, um contraponto às bandas de metal e punk que ouvia na adolescência.

Ele conta que não vê sentido na divisão rígida entre música erudita e popular, que considera mais um artifício para “dar nome aos bois”. Para ele, essa distinção carrega um “aspecto elitista”, pois acredita que há erudição tanto na música popular quanto na erudita, e que ambas se entrelaçam naturalmente no processo criativo, onde diversos estilos coexistem sem amarras de rótulos.

“Tocar e ouvir música clássica me serviu como equilíbrio. No fim, sempre enxerguei erudição no popular. E vice-versa. Todos os ingredientes sonoros são possíveis de combinar”, afirma. “No rock e metal sempre houve inserções de música clássica, folk e outros gêneros. Aprendi muito ouvindo Mahler, Beethoven, Tchaikovsky, Villa-Lobos, que são compositores que utilizavam temas populares em suas obras”. 

Já lado autoral o acompanha desde criança, quando já criava músicas e bandas imaginárias. “Depois que comecei a tocar violão, as músicas autorais surgiram automaticamente”.

Parceria que transborda da música para as artes visuais

Além de compartilhar a vida, Adriano e Pâm também dividem processos criativos. Inicialmente, ela faria apenas a capa do EP, conforme conta o músico. Mas, ao ouvir as músicas, decidiu ir além: criou uma ilustração exclusiva para cada faixa, feita à mão, em desenho e pintura. Depois, digitalizou os elementos e uniu tudo na arte da capa. O trabalho virou, também, uma linha de camisetas com as ilustrações.

“Ela aproveitou a ‘trabalheira’ que deu e transformou as ilustrações em camisetas que estão à venda”, conta.

Duas faixas do disco, ‘5pras6‘ e ‘A Noiva dos Cabelos Vermelhos‘, são diretamente inspiradas em Pâm, que também esteve presente na concepção dos conceitos, na divulgação e na estética visual do projeto.

(Arte: Pâm Dondé/Divulgação)
Música, dança e pintura no mesmo palco

Outra camada do trabalho de Adriano é a integração de outras linguagens artísticas aos seus shows. No projeto Violão, Cores e Movimento, ele se apresenta acompanhado da bailarina Ayumi Sato, que cria coreografias para algumas peças, enquanto Pâm pinta uma tela ao vivo.

A participação da dança também esteve no show de lançamento, especialmente na execução da faixa ‘A Noiva dos Cabelos Vermelhos‘, uma valsa que mistura elementos do violão do século 19 com harmonias contemporâneas.

“Sempre achei lindo demais esse diálogo com a dança, e era uma vontade antiga fazer algo assim. A Ayumi dança desde criança e gosta muito de danças mais contemporâneas, o que fechou muito bem com a proposta, tanto do espetáculo que criamos quanto da abordagem da minha música”.

Uma nova fase

Entrelinhas marca oficialmente o início de uma fase mais autoral e madura na carreira de Adriano Flesch. Superadas as inseguranças e a falta de organização que, segundo ele, postergavam alguns projetos, o músico agora quer rodar o EP pelos palcos e já pensa em novas composições.

“Gostei demais da experiência, de poder soltar no mundo as minhas ideias musicais. Dá pra dizer que é uma fase mais focada no que eu tenho pra mostrar. Tenho muitas ideias acumuladas em anotações e áudios. E não posso deixar de mencionar o quão feliz e realizado me sinto, inclusive pela receptividade que o álbum está tendo. Ouço e leio muitos elogios e até sugestões de caminhos a seguir. Isso tudo se torna combustível pra criar mais”, diz o artista.

O EP tem produção, baixo, percussões e violão de 7 cordas assinados por Poejo, além de mixagem e masterização de Matheus Nunes. Também participam Otávio Rodrigues (bateria), Asafe Rodrigues (piano), Isadora Apollo (voz) e Alex Barbosa, cantor, regente coral e multi-instrumentista, além da direção de dois videoclipes feita por Igor Marques.

Confira o trabalho na íntegra: