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Quando o rio acende o alerta? Entenda como funciona o monitoramento das cheias na região

Defesa Civil explica os parâmetros usados para medir risco de enchentes e como a comunicação entre os municípios é fundamental para evitar tragédias
Imagem aérea de Três Coroas na enchente de 2024 (Foto: Fábio Haack Fritz/Divulgação)

Se na enchente histórica de 2024 a população do Vale do Paranhana se viu refém da força das águas, também ficou claro que o monitoramento dos rios nunca esteve tão acessível. Em tempo real, qualquer morador pode abrir sites como o niveldorio.com e acompanhar, metro a metro, a subida dos rios na região. Mas uma pergunta persiste: afinal, quando o rio entra em alerta? Existe uma altura padrão que indica perigo? E isso muda de cidade para cidade?

A resposta é: sim. Muda. Em Três Coroas, por exemplo, um dos municípios mais afetados, o alerta de inundação começa a acender quando o nível do Rio Paranhana se aproxima de 4,20 metros. Segundo Augusto Dreher, coordenador da Defesa Civil do município, esse é o ponto em que já há risco de alagamentos em áreas mais baixas da cidade.

“Se hoje chovesse bastante e o nosso rio chegasse a 3,75 ou 4 metros, já teria que ser dado o alerta. Mas isso também depende da condição do solo, se está seco, se os rios estão baixos. Nesses casos, o volume consegue escoar rapidamente”, explica o coordenador. Ele lembra que, na maioria das vezes, o que Três Coroas enfrenta são enxurradas rápidas, não enchentes prolongadas. “A água sobe muito rápido, mas também baixa em três, quatro horas, dependendo do que vem da serra”, completa.

O fenômeno é tão dinâmico que, em alguns casos, nem precisa estar chovendo na cidade para que o rio suba. “Os arroios Moreira e Quilombo, por exemplo, recebem água direto de Gramado e Canela. Já aconteceu de estar tempo bom aqui e os arroios subirem três metros do nada, só pela chuva na serra”, relata.

Igrejinha eleva cota de alarme após obras no rio

Em Igrejinha, os parâmetros de alerta para o Rio Paranhana mudaram após os eventos extremos de 2024. Segundo a coordenadora da Defesa Civil, Alessandra Azambuja, o trabalho de desassoreamento do leito do rio permitiu ampliar a margem de segurança da cidade.

“No nosso plano de contingência, a cota de atenção é de 3,50 metros e a cota de alarme passou a ser de 4,50 metros”, explica. Antes das enchentes de 2024, o limite de alarme era bem menor, de 3,50 metros, o que significa que qualquer cheia acima desse patamar já gerava risco de inundação.

Enchente em Igrejinha em maio de 2024 (Foto: arquivo)

A nova referência foi posta à prova no último dia 18 de junho, quando o rio atingiu exatamente 4,50 metros, acionando o alerta de inundação iminente para parte da cidade.

“A mudança desses números se deve ao intenso trabalho de desassoreamento no leito do rio, que aumentou a capacidade de vazão e retardou os impactos das cheias”, afirma Alessandra.

O caso de Igrejinha evidencia como o comportamento dos rios não é estático. Obras de prevenção, intervenções no leito e até a urbanização ao redor dos cursos d’água fazem com que os parâmetros de risco precisem ser constantemente atualizados.

Rede de proteção entre as cidades

O trabalho de monitoramento não é feito de forma isolada. Existe uma comunicação constante entre as Defesas Civis dos municípios da região. Quando o nível do rio em Três Coroas chega a dois metros, por exemplo, já é sinal de alerta para cidades mais abaixo na calha do rio.

“Se bate dois metros aqui, eu já aviso Parobé e Taquara, porque sei que essa água vai levar três horas e meia, quatro horas pra chegar lá. E da mesma forma, Gramado e Canela nos informam sobre a precipitação lá em cima, pra que possamos preparar nossa população aqui”, explica Dreher.

Medição moderna, atuação clássica

Em Três Coroas, apesar dos avanços no monitoramento online, como o sensor instalado pelo professor Carlos Fernando Jung, do Observatório Heller & Jung, de Taquara, e os novos pontos que serão implantados nos arroios Moreira e Quilombo, boa parte da atuação da Defesa Civil ainda depende da experiência e da leitura do cenário em tempo real.

“Infelizmente, ainda é no método antigo: subiu aqui, baixou ali. Vamos medindo, acompanhando, cruzando dados e tomando decisões. Funciona. Tanto que, no último susto que tivemos, o desassoreamento dos rios fez uma diferença enorme. As áreas que antes alagavam seguraram muito melhor a água”, avalia Dreher.

O caso de Três Coroas é só um exemplo de como cada município tem seus próprios parâmetros para definir os níveis de atenção, alerta e inundação. A depender do relevo, do ponto de medição e da resposta dos afluentes, uma altura que não representa perigo em uma cidade pode significar risco grave em outra.

Em Taquara, monitoramento foca no Rio dos Sinos, mas parâmetros variam conforme o ponto do rio

Em Taquara, o monitoramento dos níveis dos rios também passou por mudanças após as enchentes históricas. Segundo o coordenador da Defesa Civil local, Alessandro Santos, os parâmetros de atenção, alerta e transbordamento foram revistos tanto em função das cheias quanto das obras de desassoreamento realizadas nos últimos meses.

“Os números variam de cidade para cidade e até dentro do mesmo rio. Locais onde o rio é mais estreito ou mais largo, mais raso ou mais profundo, acabam tendo comportamentos diferentes”, explica Alessandro.

(Foto: Prefeitura de Taquara)

Hoje, o ponto oficial de medição em Taquara fica no Rio dos Sinos, na foz do Rio Paranhana, por meio de uma régua instalada pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). “Esse é o nosso meio oficial de monitoramento atualmente, quando o sistema está ativo e funcionando”, acrescenta.

A Defesa Civil também considera outros pontos da cidade, já que os níveis podem variar dependendo das características do terreno e do próprio leito do rio. “Por isso, é difícil ter uma única referência. Os parâmetros mudaram, sim, depois da enchente de maio, e seguem sendo ajustados conforme o comportamento do rio e as intervenções feitas”, explica Alessandro.