
Aos 53 anos, a igrejinhense Andreia Henssler já percorreu continentes com os próprios pés. Mãe, educadora física e nutricionista, ela soma 293 troféus em duas décadas de provas e não pretende parar tão cedo. Seu novo projeto é ambicioso: completar corridas em todos os países da América do Sul e, com isso, entrar no Guinness Book, o famoso livro dos recordes. Mas não se trata apenas de números. O que move Andreia é a clareza do propósito e a disciplina cotidiana que transforma sonho em realização.
O desafio internacional mais recente ocorreu no dia 8 de junho, quando Andreia conquistou a medalha de bronze na KLM Marathon 2025, em Aruba. Enfrentando calor e vento, a atleta, conhecida como “Lagartixa”, ficou em terceiro lugar na meia maratona de 21 km, que passou por praias como Arashi, Boca Catalina, Malmok, Palm Beach e o Farol da Califórnia.
Esse foi só mais episódio de sua trajetória vitoriosa. Desde que começou a disputar provas internacionais, em 2008, Andreia mantém um cuidado meticuloso com os registros. “Não posso simplesmente ir a um lugar e dizer que corri lá. Tudo tem inscrição, comprovação. Porque sempre pensei que um dia isso poderia estar no Guinness Book”, conta.
A ideia não é recente. Ao longo dos anos, ela já acumulou corridas em todos os continentes, embora ainda não tenha verificado se alguma mulher já alcançou esse feito com o mesmo critério. Agora, foca na América do Sul: faltam cinco países.
Desistência, gelo e 13 metros de onda: os perrengues de uma mãe atleta
Ser atleta em tempo integral já exige força. Ser mulher, mãe e corredora de longas distâncias nos cantos mais extremos do planeta, então, exige muito mais do que preparo físico.
“Eu tenho 53 anos. Na minha época, mulher sair viajando para competir não era uma coisa muito normal”, conta Andreia Henssler.
Com o filho pequeno em casa, ela precisou montar uma rede de apoio para treinar. E seguir em frente.
“Eu era mãe do Felipe. Tinha que ter todo o aparato em casa pra me ajudar. Porque quem treina pra competir precisa de tempo, rotina. E eu sempre quis pódio”.

Além das cobranças e limitações que pesam sobre tantas mães, Andreia teve que driblar também os desafios financeiros. Fez vaquinha, leilão de jaleco, vendeu camiseta, preparou sanduíche na academia. Tudo para colocar um sonho nas pistas.
Mas os perrengues não foram só antes da largada. No mar da Costa Rica, enfrentou o pior dos medos: quase morreu afogada em uma corrida de aventura quando ondas de até 13 metros viraram seu caiaque.
“O barco virou. Eu disse pro meu colega: ‘Vou morrer. Não chega perto de mim, senão morre junto’. Peguei o remo. Aí o bombeiro chegou. Saí chorando. E continuei a prova”.
Na Patagônia, encarou o frio extremo de Ushuaia, correndo 42 km no gelo com cílios congelados e a camelbak (mochila de hidratação) travada pelo gelo. No deserto do Atacama, correu sob o sol e a altitude. E na selva amazônica, largou do coração da floresta após uma viagem de barco e dormiu três noites em rede no meio da mata.
Apesar de tudo, nunca pensou em parar:
“A gente pode qualquer coisa. Só precisa fazer os passos para chegar lá. Não dá pra pular do chão até o topo. É degrau por degrau. Desistência, degrau, degrau de novo. E seguir”.
O sonho é só teu
Andreia fala com segurança, com os pés no chão, como gosta de estar. Tudo o que construiu, diz, veio de uma decisão consciente de trilhar seu próprio caminho. “Tenho colegas que viraram advogados famosos, pais de gêmeos, professores… cada um escolheu sua trajetória. A minha foi pela corrida. Fui eu que desenhei esse projeto pra mim”, diz.
Para ela, o sucesso é sustentado por quatro pilares essenciais: sonhar, planejar, acreditar mais do que tudo. E agir.
“Não adianta ficar com a bunda sentada no sofá. Tem que botar a mão na massa”, resume.
A corrida como espelho da vida
A trajetória de Andreia vai além das medalhas e dos países visitados. Ela carrega nas pernas e na fala uma história marcada por esforço, superações e lições profundas. Nascida em uma família humilde de Igrejinha, “filha do seu Silvio e da dona Elma”, como se refere aos pais, cresceu com três irmãos e aprendeu cedo o valor das escolhas.
“Eu queria fazer Educação Física. E eu não queria ficar em Igrejinha. Eu queria algo maior”, afirma.
O “maior”, no caso, veio com trabalho árduo. Todos os dias, treinos, faça chuva, sete graus ou sol forte. Alimentação regrada. Planilhas que ela mesma prescreve. “Pra chegar nos 293 troféus, precisei de disciplina. Mas isso serve pra tudo: pra ser nutricionista, pra orientar um paciente, pra ensinar alguém a alcançar o que deseja”, diz.
O que ela aprendeu nas corridas aplica em qualquer área da vida. E não só na sua. “Esses conhecimentos me ajudam a mostrar ao meu aluno, ao meu paciente, onde ele pode chegar. O que ele pode conquistar.”
A dor que vira força
De uma família simples, Andreia soube desde cedo que precisaria batalhar mais do que outros. Viu a família ter um pouco de sucesso com o negócio do “seu Sílvio”, depois enfrentar falência, depois recomeçar. Perdeu o pai para o alcoolismo, mas não carrega isso como tragédia.
“Isso serviu pra alguma coisa. Não é tragédia, é lição. Me fez dar um passo à frente”, afirma.

Ela acredita que a força vem do acúmulo de experiências. “É uma pilha. A gente vai empilhando aprendizados, vivendo, errando, tentando de novo. E isso vai nos levando pra frente”.
O apelido
Se a estrada foi longa, a construção da “Lagartixa” foi feita passo a passo. O apelido surgiu em tom de brincadeira, mas passou a representar uma identidade: a de quem escala obstáculos, se adapta aos terrenos mais improváveis e segue firme, mesmo quando falta apoio ou sobra dúvida. A “Equipe Lagartixa”, formada por alunos e parceiros de corrida, nasceu dessa filosofia. Era um grupo que, sob sua liderança, transformava treino em propósito. Cada prova era uma chance de superação coletiva, não só no tempo cronometrado, mas na mentalidade dos participantes.
Andreia nunca foi do tipo que corre só por correr. Ela gosta de competição, e, mais do que isso, de resultado. “Sou competidora nata”, admite, com o brilho de quem não foge do próprio desejo. Mas ela também entende que o pódio é só a ponta do iceberg. Por trás de cada troféu há disciplina, rede de apoio, fé, logística, mentalidade. “Sempre digo: o pódio começa antes, quando tu te prepara direito”, explica.
E ela se prepara. Em todas as corridas, há um planejamento detalhado, do treino ao café da manhã. “Tem gente que acha que é só botar o tênis e correr. Mas não é. Tem que estudar o clima, o trajeto, a alimentação, o horário de pico do teu corpo. Tudo influencia”.

O que mais influencia, porém, é a mente. Para ela, o segredo está no controle emocional, desenvolvido ao longo do tempo, principalmente depois da leitura de A Semente da Vitória, do preparador físico Nuno Cobra. Desde então, visualiza todo o percurso mentalmente antes da prova. “Não é místico. É treino. É foco. É saber lidar com o que vai vir: dor, cansaço, erro de percurso, medo, euforia”.
E medo, aliás, não faltou. Uma das experiências mais marcantes foi na Costa Rica, onde, durante uma prova, teve que enfrentar uma região considerada de risco. “Lá, tu corre com segurança armada. Tinha trecho que era mata fechada, outro com subida violenta e um calor que derretia o cérebro”, relembra. “Nessas horas, ou tu te entrega ou tu cresce”.
Quatro cantos do mundo
Ao longo de mais de 20 anos de provas, Andreia correu no frio extremo, em terreno arenoso, sob tempestade, na neve. Esteve em todos os continentes, conquistou quase 300 troféus e viveu situações que desafiam o corpo e o psicológico. Mas a maior conquista, segundo ela, é ter feito tudo isso fiel à própria essência, e inspirando outras pessoas a buscarem os próprios degraus.
Na parede do quarta, o mapa continua ali, lado a lado com os sonhos, com alfinetes indicando os países já conquistados. Faltam poucos para concluir a América do Sul: Equador, Venezuela, Guiana Francesa, Suriname e Guiana. A cada nova viagem, Andreia carrega não só a bandeira do Brasil, mas também a de Igrejinha.
“Eu corro com orgulho da minha origem. Pode parecer bobo, mas subir no pódio com a bandeira da cidade é uma forma de lembrar de onde eu vim”.

E ela segue correndo. Não para provar nada a ninguém, mas pra continuar se provando. E para continuar inspirando. “Tu pode tudo. Só precisa sonhar, planejar, acreditar muito mais do que qualquer coisa. E agir. Ninguém vai correr no teu lugar”.
Degrau por degrau
Quando perguntada sobre a principal lição de vida, Andreia responde com uma metáfora simples e potente: uma escada. “Eu comecei aqui embaixo. Como muita gente. E não tem como saltar direto pro topo. É degrau por degrau. Às vezes com desistência, mas sempre subindo”.
Ainda não se considera no topo, e talvez nunca se veja assim. Porque, para ela, a beleza está no processo. “A gente pode tudo. Independente de sexo, idade, formação. Mas tem que ser o teu sonho. E tu tem que correr atrás. Não é o outro que vai correr por ti”.


