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Ondjaki e Socorro Acioli abrem a 2ª Flitaq com conversa sobre invenção, afeto e liberdade na escrita

Autores destacam a força do imaginário, do afeto e das influências na literatura, em conversa mediada por Nanni Rios na abertura da festa literária
(Fotos: André Amaral/Rádio Taquara)

A conferência de abertura da 2ª Flitaq – Festa Literária Internacional de Taquara e Semana Literária, realizada na noite de quarta-feira (5), trouxe ao palco o escritor angolano Ondjaki e a autora cearense Socorro Acioli, com mediação da jornalista, produtora cultural e fundadora da Livraria Baleia, para o encontro “Romance e Afeto em Palavras”.

Logo no início, Nanni refletiu sobre a invenção na literatura, dizendo que o escritor não cria apenas histórias, mas também uma nova linguagem. Inspirada na ideia do encantamento, destacou como essa força simbólica atravessa as obras de Ondjaki e Socorro Acioli e provocou: “É esse encantamento que faz os olhos brilharem, que muda a vida de quem cruza com um livro ou um escritor. Como ele passa pela vida de vocês?”.

Socorro Acioli, autora de ‘Oração para Desaparecer’, ‘A Cabeça do Santo’ e ‘A Bailarina Fantasma’, respondeu resgatando sua formação como jornalista. “Eu me preparei para escrever sobre a realidade, mas vi que não ia poder inventar as coisas que eu queria. Às vezes, a matéria estava quase pronta, mas eu queria colocar uma coisinha a mais, e não podia (risos). Durou seis meses. Depois disso, entendi que não dava”, brincou.

Socorro Acioli

A autora relatou que a ficção acabou sendo o espaço onde encontrou tempo e liberdade para imaginar. “No jornalismo, pedem pra escrever uma matéria por dia. Jornalismo exige pressa, e eu preciso de tempo.
Demoro sete anos para escrever um livro. Agora, finalmente, estou no meu tempo justo”. E acrescentou: “Hoje em dia, está todo mundo muito apressado — escrita rápida, preocupada em temas urgentes e necessários —, mas eu continuo muito concentrada na forma de narrar”.

Em seguida, ela falou sobre o livro que escreve atualmente, inspirado no processo de desativação de hospitais psiquiátricos no Brasil e em experiências pessoais, que irá se chamar ‘Delírio San Pedro’, ambientado no Edifício São Pedro em Fortaleza, um prédio abandonado à beira-mar.

“É uma história sobre pessoas que saem de um hospital psiquiátrico depois que ele é desativado. Tenho entrevistado muita gente, porque nesses hospitais sempre sobravam as pessoas que realmente sobravam, sem nome, sem documento, sem família. Esse livro tem relação com minha vivência com a minha mãe, que foi paciente psiquiátrica grave, mas a história não é sobre ela. Parte de uma pergunta que eu tinha desde criança: por que ela fala assim? Por que ela faz isso?”, contou.

Socorro disse que é eventualmente questionada sobre a possibilidade de escrever uma autoficção, gênero literário que mistura autobiografia e ficção, mas rejeita a ideia.

“Outro dia, uma amiga, [a escritora] Andréa del Fuego, me perguntou: ‘Você nunca pensou em escrever uma autoficção sobre isso? Está todo mundo escrevendo, vendendo, ganhando prêmio com autoficção!’ E eu respondi: ‘Mas aí eu perderia o melhor do meu trabalho’. Esse portal que se abre quando começo a inventar. Sou feliz por poder imaginar. É o melhor trabalho do mundo”, disse a autora.

E falou sobre seu método criativo: “Tenho cadernos onde anoto tudo: impressões, nomes, ideias, recortes colados, trechos de livros. São cinco cadernos só de ‘Oração para Desaparecer’. Quando releio, vejo ali um mosaico, fragmentos de viagens, pessoas, palavras. E o livro nasce desse emaranhado”.

“A verdade precisa de um pouco de invenção”

Ondjaki, autor de ‘Os Transparentes’, ‘Bom Dia, Camaradas’ e ‘AvóDezanove e o Segredo do Soviético’, entrou na conversa confessando que sua trajetória literária começou com uma “mentira”.

Ele relatou que, ao ser convidado por um editor para participar de uma coleção sobre a independência de Angola, ele disse já estar escrevendo um livro sobre o tema, embora nunca tivesse escrito um romance – ele só escrevia contos e poesia. A partir daí, decidiu realmente criá-lo. Entre recordações da infância, professores cubanos e o cotidiano do pós-independência, percebeu que estava transformando suas próprias memórias em ficção.

Ondjaki

“Então, vou fazer uma confissão, já que é a minha primeira vez aqui nesta pequena, grande cidade: fiz autoficção dentro da ficção, a partir de uma mentira”, resumiu.

Para ele, quase tudo no livro aconteceu, “mas às vezes a verdade precisa de um pouco de invenção para ser melhor contada”.

Ele contou que acabou usando memórias de infância e experiências da geração pós-independência de Angola, iniciada em 1975.

“Eu era filho de pais que lutaram na guerrilha contra a ocupação portuguesa. Nós éramos a primeira geração a estudar em manuais angolanos, num país que já não era dominado pela ideologia portuguesa. Então, não havia como fugir. Quase tudo o que os leitores acham que é invenção aconteceu mesmo”.

Influência do “realismo mágico”

Em outro momento da conversa, Socorro Acioli lembrou a influência do colombiano Gabriel García Márquez (1927–2014) em sua trajetória. Ela contou que conheceu o autor pessoalmente durante um curso ministrado por ele em 2006, em Cuba, na Escuela de Cine y TV de San Antonio de Los Baños, e que essa experiência foi determinante para sua carreira literária, resultando posteriormente no livro ‘A Cabeça do Santo‘.

“Foi García Márquez quem me ensinou que não era preciso sair do meu lugar para encontrar boas histórias”, disse Socorro Acioli em uma entrevista. “Esta foi a primeira lição que aprendi com García Márquez: para que o tema arrebate o leitor, o autor precisa ser arrebatado primeiro. A melhor história que um autor pode escrever é a que mais o apaixona”.

Público prestigiou a abertura da Flitaq junto à Praça Marechal Deodoro

Socorro já havia destacado em entrevistas que o realismo mágico presente em sua escrita não é uma cópia do modelo latino-americano, mas uma forma de representar o encantamento brasileiro, mais próximo do cotidiano e do afeto.

“Não é que eu queira fazer realismo mágico. É que o nosso real já é cheio de encantamento, de fé e de mistério”.

Ondjaki também falou sobre o encantamento que encontra na literatura de Gabriel García Márquez, citando-o como exemplo de escritor capaz de transformar o banal em preciosidades. “O importante é saber distribuir a história, fazê-la chegar, como fazia García Márquez: transformar qualquer pequena coisa numa grande narrativa”.

Ele disse compartilhar de uma visão semelhante à de Socorro Acioli, defendendo a liberdade de cada autor para criar a literatura que deseja. Para o angolano, o essencial é fazer a história chegar ao leitor, independentemente de estilo ou forma: “as boas histórias têm um bom público. E o público bom é o ser humano”, disse.

Para ilustrar, citou Guimarães Rosa e Conceição Evaristo como exemplos de escritores que criaram linguagens próprias, ressaltando que o que realmente importa é a maneira como a narrativa toca quem lê.

“Eu venho de uma família de malucos, onde a literatura já está. É preciso ser muito distraído para não enxergar as histórias que brotam ali. Claro, há algum talento na forma de contar, mas vem também de uma herança: um país com uma história cheia de ocupações, colonialismo, guerra, escravidão. E, mesmo assim, um povo de uma resistência e de um humor impressionantes. Por isso, acredito que o encantamento também nasce da nossa capacidade de nos deixarmos encantar, especialmente em tempos difíceis, quando parece não haver espaço para o assombro. Às vezes, o papel do escritor é justamente esse: descobrir pequenos encantamentos em tempos de cólera”.