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Chico César mistura lirismo, crítica e ancestralidade em show de encerramento da 2ª Flitaq Sesc

Com hits, homenagens e reflexões sobre racismo e identidade, artista paraibano encerrou a festa literária em uma noite de celebração e resistência
(Fotos: André Amaral/Rádio Taquara)

Um dos grandes nomes da música popular brasileira, Chico César celebrou os 30 anos do álbum ‘Aos Vivos’ com um show que teve algo de catártico na noite de terça-feira (11), encerrando a 2ª Festa Literária Internacional de Taquara (Flitaq) Sesc e Semana Literária diante de um público que lotou o Centro de Eventos da Faccat.

Aos 61 anos, Chico mostrou a que veio logo de cara. Após uma entrada performática com ares futuristas, o artista abriu a apresentação com ‘Béradêro’. Na sequência veio ‘Mama África’, hit de seu primeiro disco, lançado em 1995, que projetou o paraibano nacionalmente e consolidou sua carreira como cantor, compositor e instrumentista. Logo em seguida, apresentou ‘À Primeira Vista’, que estourou na voz de Daniela Mercury nos anos 1990, entrelaçada em um medley com ‘Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores’, de Geraldo Vandré, hino da resistência à ditadura militar.

Com uma performance marcada por lirismo, consciência política e identidade cultural, Chico costurou o repertório com críticas sociais e celebrações à diversidade da música brasileira, um mosaico que vai do reggae ao forró, do samba à canção de matriz africana.

‘Aos Vivos’ acabou se transformando em uma espécie de coletânea antecipada de sucessos do compositor. Do disco, também fizeram parte do repertório do show na Faccat canções como ‘Templo’, ‘A Prosa Impúrpura do Caicó‘ e ‘Mulher Eu Sei‘.

No bis, o público foi presenteado com clássicos como ‘Estado de Poesia’, do álbum homônimo de 2015. Em outro momento marcante, o artista prestou homenagem a Lô Borges, falecido no dia 2 de novembro, aos 73 anos, ao citar um trecho de ‘Paisagem da Janela’, do Clube da Esquina.

Chico levou ao palco canções do álbum ‘Aos Vivos’ e outros sucessos
Diversidade

Durante entrevista concedida à Rádio Taquara após o show, Chico César refletiu sobre as questões raciais no Brasil – em especial no que diz respeito ao racismo estrutural nas esferas social, econômica e política –, além de comentar o papel de sua obra nesse debate e suas influências pessoais.

“Acho que a obra é consequência”, disse. “O que eu canto é fruto da observação. Sinto que a existência de secretarias de igualdade racial e a presença de pessoas negras e indígenas em cargos de decisão mostram avanços. Antes, uma fotografia de governo era toda branca. Agora, vemos mais diversidade, e isso é importante”.

Sobre suas influências, Chico destacou a importância de artistas regionais que romperam fronteiras culturais, citando o gaúcho Teixeirinha, a quem reconhece como um artista “não branco” e fundamental para difundir a música do Sul pelo país.

“O Teixeirinha, para mim, é um artista preto. Na minha percepção, de garoto que trabalhou em uma loja de discos nos anos 1970, dos 8 aos 15 anos de idade, ele é tão importante quanto Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Tonico e Tinoco, Pinduca, Pena Branca e Xavantinho. Não fosse ele e Mary Terezinha, nós, lá do interior da Paraíba, pouco saberíamos da música gaúcha. Esses artistas extrapolaram a bolha regional e falaram para o Brasil inteiro. Eram como o Roberto Carlos: estavam ali falando para todo o país. Isso era muito importante, a gente conhecer as regiões, os povos, as gentes, através da música”, afirmou.

O paraibano tem inúmeros parceiros e referências musicais no RS

Ao ser questionado sobre artistas negros contemporâneos, Chico citou nomes como Liniker e Jota.pê, destacando a força criativa e a representatividade de novas vozes.

“Liniker é uma artista negra, trans, maravilhosa. Jota.pê é um cantor e compositor incrível, com uma voz linda. Seu primeiro disco ganhou três Grammys, e ele acaba de lançar um trabalho lindo com João Gomes e Mestrinho, de música nordestina”.

Chico também falou sobre a conexão entre África e Nordeste, tema que atravessa sua obra e que, segundo ele, ganhou novo sentido após uma conversa com o pianista e maestro congolês Ray Lema.

“Ele me disse que o artista mais africano do Brasil é Luiz Gonzaga. Isso me surpreendeu. Disse que os temas de Gonzaga, as árvores, os rios, os pássaros, são os mesmos da rumba congolesa. E aquele riff de ‘Asa Branca‘ é pura música africana. A partir dali, percebi que está tudo certo: o Nordeste é África. Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Trio Nordestino… tudo preto. É música africana mesmo”.