Do “Meu livro de citações” — Plano de márquetim é igual a destino: só depois de acontecido a gente sabe onde acertou
e onde errou.
RONALDINHO
Tenho escrito muitas vezes o que penso sobre quem tem por profissão alguma atividade esportiva. Sou repetitivo. Aliás, quando me refiro a esportistas, não significa só estar pensando neles. Viso também a cantores e atores. Porém, como o alvo, hoje, é um jogador de futebol, a palavra me escapou.
Incomoda-me pensar no poder dado por nós a pessoas que, no fundo, têm apenas habilidades excepcionais em algum setor de atividade. Tratamos essas pessoas como se fossem enviadas dos deuses para mostrar sua (deles) boa vontade para conosco. Vejam a Amy Winehouse, aquela maluquete inglesa. Por cantar bem, acha que tudo pode, inclusive tripudiar sobre o bom senso. Ela faz quantas m*r*das quiser. Mesmo assim, haverá alguém jurando que ela é enviada divina.
E no futebol não é diferente. Alguns predestinados se dão conta dessa eventual superioridade sobre o resto da humanidade e deitam e rolam. Isso acontece com o Ronaldinho Gaúcho. Ciente de suas qualidades com o velho balão de couro (nem sei se a bola ainda é chamada assim), ele resolveu aproveitar. Junte-se ao seu domínio sobre a redonda (outra que não sei se ainda é usada – felizmente a forma continua) um empresário dos bons e, pronto!, o furdunço está feito.
Não compreendi, por isso, a raiva dos torcedores do heroico coirmão, o Grêmio, ao sentirem o avanço, e vitória, do Flamengo na disputa pela contratação desse jogador. Ronaldo foi chamado de mercenário, de traíra e de mais um monte de palavras cuja verdadeira intenção era serem palavrões. Porém, qual era o tema de toda a novela? Não era acerto de trabalho entre duas partes? Se alguém se tornaria empregado de uma empresa, obviamente havia o quesito salário. Por qual razão teriam os gremistas acreditado num belo conto de fadas, com um “foram felizes para sempre” no final? Não consigo entender em qual momento deveria entrar em cena a obrigação de um profissional abrir mão de sua remuneração em prol do empregador, a não ser por uma decisão absolutamente pessoal. Isso de o Pelé dar conselhos sobre jogar de graça é algo de foro muito íntimo; o rei só praticou depois de se beneficiar à larga de seus contratos.
O próprio Grêmio concorda com o sistema. Afinal, participou do “leilão”, segundo as constrangidas explicações de seu presidente; enquanto não foi descartado pela maior oferta, considerava tudo muito correto. Por seu lado, Ronaldinho fez aquilo que qualquer um de nós faria: batalhou por um salário maior.
Se há algo atravessado nesta história é o fato de tanta gente dar tanta atenção a um mero jogador de futebol. Quanto ao dinheiro, basta os torcedores deixarem de pagar suas contribuições sociais e comprar os produtos aliados aos craques. Isso é voluntário, não é obrigação. Em pouco tempo não haveria mais “traíras”.
Isso exposto, preciso conversar com o Assis!


