
A mudança para turno único nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Taquara, iniciada no dia 10 de novembro, gerou divergências entre o Hospital Bom Jesus (HBJ) e a Secretaria Municipal de Saúde. Enquanto a direção do hospital teme sobrecarga na emergência, especialmente no atendimento de baixa complexidade que deveria ser absorvido pela rede básica, a Prefeitura afirma que os primeiros levantamentos não apontam aumento de demanda e que a medida tem caráter administrativo, sem impacto direto na porta de entrada hospitalar.
A decisão ocorreu em 3 de novembro, durante a plenária ordinária do Conselho Municipal de Saúde de Taquara, que tratou de atualizações da Secretaria Municipal de Saúde, do HBJ, da terceira etapa da Pré-Conferência Municipal de Saúde e do curso interno de capacitação. A reunião foi realizada na Unidade de Saúde Gilberto Amaral Saraiva, no Loteamento Eldorado, com a participação de 10 das 16 entidades do colegiado, garantindo quórum para deliberações. Também estiveram presentes representantes das Comissões Locais de Saúde dos bairros Cruzeiro/Ronda, Jardim do Prado/Recreio/Sagrada Família, Bairro Empresa e Eldorado, além de moradores da comunidade.
Durante a reunião, a secretária municipal de Saúde, Loreni Spirlandelli, anunciou a adoção do turno único nas repartições públicas de saúde entre 3 de novembro de 2025 e 31 de março de 2026. Nesse período, o atendimento nas UBS ocorrerá das 8h às 14h, de segunda a sexta-feira. O intervalo sem atendimento externo será utilizado para capacitações semanais com toda a equipe da secretaria.
Loreni explicou que alguns serviços manterão o expediente habitual, entre eles o Complexo Municipal de Saúde, que inclui a Farmácia Básica e o atendimento médico de urgência, além do CAPS AD e CAPS II. Ela também informou que o recesso de fim de ano será realizado entre a tarde de 24 de dezembro e 4 de janeiro de 2026, com atendimento mantido apenas no Complexo de Saúde e no SAMU.
Já o atendimento no Complexo de Saúde continuará das 7h à meia-noite, de segunda a segunda feira.
HBJ teme aumento do fluxo
O diretor técnico do HBJ, Yasser Calil, afirma que a principal preocupação é a busca de atendimento na emergência para casos não-urgentes e pouco urgentes, decorrente da redução do horário nas unidades de atenção primária. Segundo ele, o momento de transição na rede e o treinamento dos postos podem gerar sobrecarga no hospital.
“Nesse momento de transição da rede pública de saúde, do treinamento dos postos, o que nos preocupa é uma provável sobrecarga na nossa emergência. Nós vamos atender todos os pacientes que chegarem, vamos acolher todos, mas vamos seguir a classificação de risco. Pela classificação de Manchester, os quadros mais graves serão atendidos primeiro. Pacientes com doenças leves, como resfriados e demais enfermidades que não apresentam risco à vida podem ser atendidas nos postos de saúde ou nas unidades de pronto atendimento”, disse.
Apesar da apreensão, Calil ressalta que o hospital segue operando dentro da capacidade prevista: “Nós não esperávamos a decisão, mas estamos preparados para acolher a população de Taquara sempre”.
Ele também detalhou o funcionamento do protocolo de risco, enfatizando a prioridade clínica e o impacto do fechamento das UBS na procura por atendimentos simples.
“Sobre a classificação de risco: usamos (no Brasil) o Protocolo de Manchester. Pacientes vermelhos exigem toda a atenção da equipe; depois vêm os laranjas e amarelos. Os verdes e azuis deveriam ser atendidos na rede, mas acabam vindo para cá. Eles são atendidos apenas após a estabilização dos casos mais graves. Já há relatos de pessoas que não conseguem marcar consulta antes de janeiro ou março, e até de profissionais da rede sugerindo que vão direto ao hospital. Isso cria ruídos. Vamos atender todos, mas haverá insatisfação pela espera, porque devemos priorizar quem está pior”.

A diretora executiva do HBJ, Marisete Dal’Molin, compartilha a mesma preocupação e destaca que a decisão da Prefeitura — tomada, segundo ela, sem participação ou conhecimento prévio do hospital — deverá direcionar uma quantidade maior de pacientes à instituição.
“Foi uma decisão unilateral da Prefeitura e da Secretaria de Saúde, assim como ocorreu quando fecharam o complexo da meia-noite às 7h. Mantemos uma boa relação com a Secretaria; não há conflito. Mas percebemos a necessidade de que o hospital participe nessas decisões, porque todo o sistema é integrado. É uma decisão da Prefeitura, motivada por economia, mas não há reforço de médicos ou profissionais para absorver essa demanda. O contrato firmado cobre o pronto atendimento e aquilo a que já nos propomos, mas seguimos preocupados”, disse a diretora.
Marisete reforça que a ausência de uma rede primária funcionando em horário ampliado deverá ser suprida pelo hospital, dificultando o atendimento e, assim, prejudicando toda população.
“Nós gostaríamos de manifestar a nossa preocupação com essa alteração nas UBS. Quando não há uma atenção primária bem estruturada com horário amplo, é preciso se preocupar, porque quem fica doente não tem hora nem dia. Com todas as UBS fechadas no turno da tarde e o Complexo também tendo limite físico, nossa preocupação é que o HBJ receba um número maior de pessoas buscando atendimento do que é capaz de realizar em tempo normal”, afirmou.
Segundo ela, a situação foi encaminhada aos órgãos competentes e compartilhada internamente entre as lideranças técnicas.
“O doutor Yasser tem esse olhar técnico como diretor, e a Marri Andressa Hilbert de Souza, gerente de enfermagem, além da Andrea Haag, coordenadora assistencial do HBJ, que estão na linha de frente da enfermagem, compartilham da mesma preocupação. Não é que não estejamos preparados; estamos. Mas existe o risco real de sobrecarga de serviços e, automaticamente, o atendimento pode ficar um pouco mais lento para quem, na verdade, deveria estar sendo atendido em uma unidade básica”.
“Sobrecarga durante a madrugada não se confirmou”, diz Prefeitura
Diante da preocupação, a Prefeitura enviou à Rádio Taquara uma nota oficial assinada pela secretária de Saúde, Loreni Spirlandelli. O texto afirma que a adoção do turno único nas UBS visa otimizar a gestão e reduzir custos em um período de ajuste financeiro, incluindo economia em energia, manutenção e horas extras. Segundo os primeiros levantamentos, não houve aumento na demanda do Complexo Municipal de Saúde desde a mudança.
A secretaria reforça que os públicos atendidos por UBS e HBJ são diferentes, o que explicaria a estabilidade observada no Complexo. As UBS concentram atendimentos de demanda espontânea, acompanhamentos, programas e consultas agendadas, enquanto o hospital é referência para urgências e emergências e recebe repasses específicos para esse fim.
A nota também afirma que a possibilidade de sobrecarga durante a madrugada não se confirmou. “A avaliação de que a mudança poderia gerar sobrecarga na emergência não se confirmou nos dados técnicos levantados após o fechamento do Complexo de Saúde nesse horário já no ano anterior”, diz o texto.
A Secretaria garante que monitora o fluxo diariamente e que reforçará o Complexo Municipal durante o recesso de fim de ano, caso necessário. A orientação à população permanece: urgências e emergências devem ser encaminhadas ao Hospital Bom Jesus; casos de menor complexidade e consultas preventivas devem ser buscados nas UBS dentro do novo horário.
A pasta também informou que, entre novembro e março, todas as equipes passam por capacitações semanais para qualificar os fluxos internos, sem prejuízo à assistência.
Orientações do HBJ à população
A direção do Hospital Bom Jesus reforça que a população deve observar as três instâncias da rede de saúde antes de buscar atendimento: Unidades Básicas de Saúde, Complexo Municipal de Saúde e Hospital Bom Jesus. A orientação é sempre procurar primeiro a atenção primária ou o pronto atendimento, evitando a sobrecarga da emergência hospitalar.
Com a redução de horários das UBS, o hospital avalia que houve uma reorganização na distribuição das consultas na rede. Por isso, o primeiro passo para casos leves, como resfriados, sintomas gripais, pequenas queixas ou demandas não urgentes, deve ser o contato com os postos de saúde ou com o Complexo de Saúde.
A equipe do HBJ observa ainda que, como a capacitação da rede envolve 13 UBSs, é possível que nem todas as equipes estejam em treinamento ao mesmo tempo. Segundo a administração do hospital, se houver profissionais disponíveis, eles poderiam reforçar o Complexo Municipal para absorver pacientes classificados como verde e azul, conforme o Protocolo de Manchester. Essa, porém, é uma decisão administrativa que cabe exclusivamente ao Executivo, e que, na avaliação do hospital, poderia ter sido discutida previamente, caso a mudança de horário não tivesse sido adotada de forma unilateral.
O hospital também reforça o papel de cada nível de atendimento. O HBJ é especializado em casos graves, como intubação, parada cardíaca, acidentes, infartos e outras emergências de alta complexidade. Já situações de baixa gravidade devem continuar sendo atendidas na rede básica ou no pronto atendimento municipal.


