
Marilene Wagner Sartori sobreviveu a cinco tiros disparados pelo ex-marido. O crime ocorreu em 22 de agosto de 2019, às margens da ERS-020, próximo à ponte do Rio dos Sinos, em Taquara. Seis anos depois, ela ainda caminha entre cicatrizes físicas profundas e um território psicológico onde o passado insiste em retornar nos sonhos.
“É uma caminhada que eu já estou tendo de mais de seis anos”, relata. “No início, os dois primeiros anos, foi mais focado na minha recuperação física”.
Quando saiu do hospital, Marilene não caminhava e não conseguia mover um dos braços. Dependia integralmente da filha para tarefas básicas. “Eu dependia dos outros para tudo. Como eu já disse para a minha filha muitas vezes: tu foste os meus braços e as minhas pernas”.
Os tiros atingiram regiões vitais do corpo da ex-servidora, perfurando o estômago e o intestino. Um deles atingiu o braço, fraturando o osso rádio, ferimento provocado no momento em que ela tentou se defender, e comprometeu o movimento da mão. Outro disparo atingiu o osso ilíaco, localizado acima da bacia, o que a deixou impossibilitada de caminhar. “Eu não caminhava, não podia mexer a perna, porque não tinha como arrumar ali. Tinha que consolidar deitada”, relatou.
A casa precisou ser adaptada. Uma cama hospitalar foi colocada no quarto. Marilene usou fraldas por meses. “Eu usei fralda durante muito tempo. Depois, com fisioterapia, inclusive urinária, consegui tirar”.

O processo de recuperação foi marcado por dor, medo e episódios traumáticos adicionais. “Teve fisioterapia que, mesmo eu avisando que não podiam mexer no braço, acabavam puxando. Estouraram ainda mais a lesão”.
Houve um momento decisivo, diante do espelho do hospital. “Quando eu passei pelo espelho e vi o jeito como eu estava, eu disse: não, essa não sou eu. Eu parecia aquelas pessoas do holocausto, encurvada, supermagra, dependendo dos outros para tudo”.
Ali, ela tomou uma decisão íntima. “Eu olhei para o espelho e disse: essa não sou eu e eu vou tratar de ficar bem”.
A reconstrução foi feita em metas mínimas. Na casa da irmã, no litoral, cada dia tinha um desafio. “Hoje eu vou dar uma volta na garagem. Caminhava do portão até a piscina e voltava para a cadeira de rodas. No outro dia, caminhava duas vezes. Depois três”.
Antes de deixar a praia, dois meses depois, conseguiu chegar até o mar. “É o querer. Eu precisava cuidar de mim e superar isso pela minha família. Pela minha família, eu faço tudo”.
A rede de apoio foi decisiva. “Recebi visitas de pessoas que eu jamais imaginava. Amigos foram fundamentais.” As orações também. “Teve gente que disse: não faz ideia de como eu rezei por ela. Eu sempre digo: se alguém rezou por mim, rezou muito bem, porque eu sou um verdadeiro milagre”.

A contínua dor psíquica
Se o corpo se recompôs parcialmente, a mente seguiu outro ritmo. “A psicológica é a pior de todas. A física tu toma um remédio e passa. A psicológica, não.” Mesmo dormindo profundamente, ela diz reencontrar o agressor. “Mesmo em sono profundo, eu encontro o meu fantasma”.
Após o julgamento, os sonhos passaram a se repetir. “Comecei a sonhar com ele. Sonhos que relatam exatamente o que aconteceu nos últimos anos, de 2016 a 2019”.
O período foi marcado por tentativas de reaproximação do ex-companheiro. “Foram três anos que ele me procurou dizendo que queria voltar, que ia terminar com a outra pessoa, que queria ser o pai que os filhos gostariam que fosse”.
Marilene impôs limites. “Eu disse: a gente precisa se conhecer novamente. Casamento, para mim, sempre foi coisa séria.” Ainda assim, acreditou que a convivência poderia ser civilizada. “Eu nunca acreditei que separação precisa virar guerra”.
Hoje, aos 66 anos, Marilene convive com medo constante. “Eu saio pouco de casa. Caminho na rua raramente. Quando vou ao médico, vou sempre olhando ao redor.” O temor se intensificou ao saber, certa vez, que o agressor havia recebido liberdade provisória, com uso de tornozeleira eletrônica, sem que ela fosse informada. “Eu acho que a vítima deveria ser avisada. Encontrar essa pessoa na rua seria devastador emocionalmente”, afirmou.
Realizado em fevereiro de 2023, o júri de José Antônio Sartori, hoje com 67 anos, terminou com a condenação do réu a 18 anos de prisão.
Quando o agressor revela sua face
Marilene rejeita a ideia de que a violência seja algo intrínseco à natureza masculina. Para ela, trata-se de um padrão ligado a problemas prévios do agressor, muitas vezes ocultos durante o período de namoro. Segundo relata, os mais de três anos de relacionamento antes do casamento foram marcados por aparente normalidade, mas a agressividade se revelou logo após a união.
“Quando eu casei, a verdadeira face apareceu. Um dia antes do nosso casamento, ele disse: ‘Agora tu vai ver quem eu sou’. E, a partir dali, eu já grávida, apanhava. Não foi nem duas vezes”.

Marilene afirma que a violência começou ali e se estendeu ao longo de 26 anos de casamento, mesmo diante de sua dedicação integral à casa, aos filhos e ao trabalho da família. Ela recorda que o ex-companheiro chegou a ser internado em uma clínica psiquiátrica, mas nunca teve diagnóstico esclarecido nem aderiu a tratamento contínuo, apesar das cobranças e questionamentos feitos por ela ao longo dos anos.
No relato, a vítima descarta justificativas baseadas em desequilíbrio mental e aponta a “maldade, a ambição e a ganância” como motivações centrais do comportamento violento do ex-marido. A crença de que poderia mudá-lo, segundo Marilene, sustentou a permanência na relação, marcada por cobranças constantes e renúncias pessoais, inclusive ao abrir mão de férias para trabalhar em benefício da família.
“Não precisa apanhar para sofrer violência”
Após os primeiros anos de casamento, marcados por violência física, as agressões diminuíram, mas a violência psicológica permaneceu. Marilene descreve um cotidiano contínuo de humilhações.
“Xingamentos, desvalorização constante. Dizer que a roupa está feia, que o sapato é horrível. Isso não é casamento”, lembra. “Quantas mulheres vivem no silêncio, vivem uma situação de abandono, de frustração, mas ficam porque ele é quem traz o dinheiro para dentro de casa e sustenta a família”.
Ela, ao contrário, virou a página da relação e seguiu trabalhando, criando os filhos e sustentando a casa. “Eu baixei a cabeça e fui trabalhar. Nunca deixei de trabalhar.” Após a separação definitiva, assumiu a direção legislativa da Câmara de Vereadores de Taquara, onde construiu uma trajetória reconhecida.

Hoje, Marilene transforma a própria história em alerta. “Não precisa apanhar para sofrer violência. Muitas mulheres são tratadas como empregadas, como escravas.” E deixa um recado direto. “Se não quiser denunciar por si, denuncie pelos filhos. Porque a família inteira sofre”.
Sobre o futuro, fala com serenidade construída à força. “Eu peço a Deus todos os dias que me mantenha com a paz que eu procuro ter”. Ainda espera o dia em que os sonhos cessem. “Quem sabe um dia esse gatilho desapareça e eu não volte mais a sonhar”.
O assunto não é pauta entre a família, mas permanece presente, de forma velada.
“É como se nunca tivesse acontecido. Mas a gente sabe que aconteceu, porque, quando eu vou me vestir de noite, não tem como eu esquecer. As marcas ficaram no meu corpo”.
Enquanto isso, ela segue. Viva. “Cinco tiros normalmente matam uma pessoa. Eu levei cinco e estou aqui. Acredito que ainda tenho uma missão”.
Relembre o caso
À época do crime, Marilene e José estavam oficialmente divorciados, mas o ex-companheiro havia proposto uma reconciliação. No dia do crime, os dois jantaram juntos e, no trajeto de volta para casa, ele parou o carro nas proximidades da ponte sobre o Rio dos Sinos, na ERS-020, alegando um problema mecânico.
Em seguida, Sartori desceu do veículo, colocou luvas, pegou uma arma e efetuou disparos contra o vidro da janela do caroneiro, onde Marilene estava sentada. Após os tiros, ele voltou ao carro e seguiu dirigindo em direção ao município de Igrejinha.

Gravemente ferida, Marilene fingiu estar morta, o que levou o agressor a conduzi-la até o Hospital de Taquara. Na unidade de saúde, Sartori afirmou que os disparos teriam sido efetuados por assaltantes. No entanto, Marilene permanecia lúcida e conseguiu relatar aos policiais a real dinâmica do crime. O homem foi preso ainda no hospital e autuado em flagrante na Delegacia de Polícia de Taquara.
Violência doméstica atinge 3,7 milhões de mulheres no Brasil em 2025
Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, revela que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar em 2025. O levantamento, que completa 20 anos e é a mais longa série histórica do país sobre o tema, ouviu mais de 21 mil mulheres entre maio e julho deste ano.
Apesar da queda nos índices em relação a 2023, os dados acendem um alerta ao indicar que a maioria das agressões ocorreu na presença de outras pessoas. Entre as vítimas no último ano, 71% relataram que havia crianças presentes no momento da violência, muitas delas filhos e filhas das próprias mulheres agredidas.
A pesquisa também aponta a recorrência dos episódios: quase 60% das entrevistadas afirmam que as agressões acontecem há menos de seis meses, enquanto 21% convivem com a violência há mais de um ano. Os resultados serão apresentados na quinta-feira (27), durante sessão especial do Senado.



