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Asteca completa 40 anos e relembra como Três Coroas se tornou referência mundial da canoagem

Fundada em 1986 por um grupo de 11 canoístas, associação ajudou a transformar o rio Paranhana em palco de Pan-Americanos e do primeiro Mundial de canoagem slalom do Brasil
Largada no Passo do Louro, nos anos 1980 (Foto: Flavio Renato Belotto/Arquivo pessoal)

Quando um grupo de 11 jovens começou a descer as corredeiras do rio Paranhana nos fins de semana, em meados da década de 1980, dificilmente imaginava que aquelas aventuras improvisadas ajudariam a transformar Três Coroas em um dos principais centros da canoagem slalom do mundo. Quatro décadas depois da fundação da Asteca (Associação Trescoroense de Canoagem) a história construída nas águas do Paranhana inclui títulos nacionais, participações olímpicas, competições internacionais e até o primeiro Campeonato Mundial da modalidade realizado no Brasil.

O início da canoagem em Três Coroas remonta aos anos de 1983 e 1984, quando os primeiros praticantes começaram a explorar as corredeiras do rio Paranhana. No Rio Grande do Sul, o esporte já existia desde 1943, trazido por imigrantes alemães, mas ainda era pouco difundido.

Em 1986, um grupo de 11 canoístas decidiu organizar a prática do esporte na cidade e fundou a Asteca. O primeiro presidente foi Flávio Belotto, que permanece ligado à entidade até hoje como diretor esportivo.

Na época, os equipamentos eram simples e escassos. Muitos dos primeiros barcos utilizados eram modelos de lazer, conhecidos como “surfinho”, com cerca de três metros de comprimento, usados para pesca e passeios em lagos, conta o pioneiro.

Leonardo Selbach e Carlos Alberto Dreher em 1985 com os chamados “surfinhos” (Foto: Asteca/Arquivo)

Mesmo com estrutura limitada, a equipe rapidamente começou a participar de competições estaduais e a obter resultados.

Uma das primeiras demonstrações da força do grupo veio em 1987, durante uma competição nacional de descida em Domingos Martins, no Espírito Santo. Atletas da Asteca e outros canoístas gaúchos enfrentaram os principais nomes da canoagem brasileira da época. O resultado surpreendeu.

“Chegamos lá e conquistamos todas as primeiras colocações. Foi quando percebi que nossa equipe era muito qualificada”, lembra Belotto.

Naquele mesmo período, a canoagem começou a ganhar visibilidade na cidade. Em 1987, cerca de 15 mil pessoas acompanharam a primeira prova de slalom realizada no rio Paranhana.

A partir das descidas e treinamentos no rio, os praticantes identificaram um trecho ideal para a criação de uma pista de slalom. Em 1989, a Asteca apresentou à prefeitura um projeto para a criação de um parque no local. A proposta foi aceita e deu origem ao Parque Municipal das Laranjeiras. O espaço rapidamente se consolidou como um dos principais centros da modalidade no país.

“Capital do mundo”

Ainda em 1989, o local recebeu o Campeonato Sul-Americano de Canoagem, a primeira competição internacional realizada em Três Coroas, lembra Belotto.

Nos anos seguintes, a cidade passou a sediar eventos cada vez maiores. Em 1988 já havia ocorrido o Festival Brasileiro de Canoagem. Em 1990 foi realizado o Festival Pan-Americano. Em 1995, o Campeonato Pan-Americano. Em 1996, uma etapa da Copa do Mundo.

O auge dessa trajetória aconteceu em 1997, quando Três Coroas recebeu o Campeonato Mundial de Canoagem Slalom, o primeiro realizado no Brasil.

Mundial de 1997 (Foto: Flávio Belotto/Arquivo pessoal)

O evento reuniu delegações de 32 países e mais de 600 pessoas entre atletas e integrantes das equipes. Segundo Belotto, a Asteca teve papel central na organização técnica das competições.

“Toda a organização da pista, arbitragem e parte técnica era responsabilidade da Asteca. A prefeitura foi fundamental na infraestrutura”, recorda.

Cultura esportiva

Paralelamente à realização de grandes eventos, a cidade também consolidava uma geração de atletas competitivos. Os treinos no Parque das Laranjeiras criaram uma cultura esportiva que rapidamente colocou os canoístas de Três Coroas no topo das competições estaduais.

Entre os nomes da primeira geração estão Leonardo Selbach, Gustavo Selbach, Márcio Tomazoni, Fábio André Hack, Cristiano Arozi, Marlon Grings, Roger Eckhard, Ênio Winkler e Cássio Petry.

O multi-campeão Gustavo Selbach durante as Olímpiadas de Atlanta, em 1996 (Foto: Gustavo Selbach/Reprodução redes sociais)

Com o retorno da canoagem slalom ao programa olímpico a partir de Barcelona 1992, o esporte ganhou impulso em todo o mundo. Na época, cinco atletas da Asteca ficaram pré-classificados para disputar as vagas brasileiras.

Como o país tinha apenas três vagas disponíveis, foi realizada uma seletiva histórica entre os próprios atletas da associação. Após três dias de provas, os classificados foram Gustavo Selbach, Marlon Grings e Leonardo Selbach. Atletas formados em Três Coroas representaram o Brasil nas Olimpíadas de Barcelona 1992, Atlanta 1996 e Sydney 2000.

O impacto da canoagem também ajudou a impulsionar outra atividade na cidade. “Em 1993, pessoas ligadas ao esporte iniciaram a prática do rafting no rio Paranhana, dando origem ao turismo de aventura que hoje atrai milhares de visitantes todos os anos”, detalha Belotto.

Comemoração após a seletiva que definiu os atletas brasileiros para os Jogos Olímpicos de Barcelona 1992 (Foto: Flávio Belotto/Arquivo pessoal)

A tradição esportiva também se manteve ao longo das décadas. Desde a fundação da Asteca, Três Coroas recebe anualmente competições do calendário nacional da canoagem. Além de atletas, a cidade também formou árbitros com participações olímpicas e profissionais que atuam na seleção brasileira.

Após cerca de uma década sem receber eventos internacionais, o Parque das Laranjeiras voltou ao cenário continental ao sediar as edições de 2018 e 2019 do Campeonato Pan-Americano de Canoagem.

Hoje, de acordo com Belotto, uma nova geração segue representando a cidade nas águas do Paranhana. Entre os destaques atuais estão Guilherme Mapeli e Murilo Sorgetz.

Murillo Sorgetz, atleta da nova geração da Associação Trescoroense de Canoagem (Foto: Asteca/Divulgação)

Quarenta anos depois da fundação da Asteca, a associação continua sendo o principal símbolo da trajetória que transformou Três Coroas em um dos berços da canoagem brasileira.

O trajeto das primeiras provas no rio Paranhana

Nos primeiros anos da canoagem organizada em Três Coroas, as competições eram exclusivamente de descida. A modalidade slalom só passaria a fazer parte das disputas a partir de 1987.

As primeiras competições organizadas pelos canoístas de Três Coroas percorriam um longo trajeto pelo rio Paranhana, combinando aventura, resistência e improviso, relembra Belotto.

Ele conta que a largada era realizada na ponte do Passo do Louro, pouco abaixo da Barragem das Laranjeiras, trecho que atualmente marca o início das atividades de rafting no município. A partir dali, os atletas desciam o rio até o Camping da Pedreira, em um percurso de aproximadamente 10 quilômetros.

Atletas chegam ao trecho do rio Paranhana no centro de Três Coroas durante as primeiras provas de canoagem realizadas na cidade, ainda na década de 1980 (Foto: Flávio Belotto/Arquivo pessoal)

Nesse ponto era feita uma parada para lanche ou almoço. Depois do intervalo, os competidores retomavam a prova em uma segunda largada.

A descida seguia pelo rio passando pelo centro da cidade até a chegada final, no CTG Querência do Mundo Novo. Ao término das duas etapas, os tempos eram somados para definir os vencedores da competição.

Asteca aposta na base e mira nova geração olímpica

Quatro décadas depois da fundação, a Asteca segue renovando gerações e mantendo Três Coroas como um dos principais centros da modalidade no Brasil. O trabalho atual da entidade combina formação de novos atletas, preparação de competidores de alto rendimento e melhorias na estrutura esportiva.

Segundo o presidente da associação, Leonardo Selbach, o foco é criar condições para que atletas da cidade continuem chegando ao cenário internacional. A meta inclui a preparação de canoístas que possam disputar vagas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

Atualmente, a escola de canoagem da Asteca reúne cerca de 30 iniciantes, que dão os primeiros passos no esporte. Além disso, a entidade conta com uma equipe intermediária formada por oito atletas que já treinam visando competições, sob orientação do técnico Cássio Petry.

Escolinha da Asteca (Foto: Asteca/Divulgação)

A estrutura da associação também passa por mudanças. A Asteca está instalada em uma nova sede na Praça de Esportes, no centro de Três Coroas. O espaço faz parte de um projeto de revitalização mais amplo desenvolvido pela prefeitura, que prevê a construção de um novo prédio para a entidade.

Outro ponto importante é a reconstrução da pista oficial de canoagem no Parque das Laranjeiras, local histórico para a modalidade na cidade e palco de grandes competições nacionais e internacionais.

Canoagem também atuou nos resgates durante as enchentes de 2024

A experiência acumulada nas águas do rio Paranhana também teve papel importante em um momento de crise recente. Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, integrantes da Asteca participaram de ações de resgate em Três Coroas.

Segundo Flávio Belotto, a associação atuou em conjunto com as operadoras de rafting do município, que tiveram papel decisivo nas operações.

“As operadoras de rafting realmente fizeram um grande trabalho de resgate, utilizando os botes”, relatou.

(Foto: Asteca/Divulgação)
Linha do tempo

1943
A canoagem chega ao Rio Grande do Sul com imigrantes alemães

1983–1984
Início da prática da canoagem em Três Coroas

1986
Fundação da Asteca – Associação Trescoroense de Canoagem

1987
Primeira prova de slalom no rio Paranhana reúne cerca de 15 mil espectadores

1988
Festival Brasileiro de Canoagem

1989
Criação do Parque das Laranjeiras e realização do Campeonato Sul-Americano

1990
Festival Pan-Americano

1992
Canoagem slalom entra nos Jogos Olímpicos de Barcelona

1995
Campeonato Pan-Americano

1996
Etapa da Copa do Mundo de Canoagem

1997
Três Coroas recebe o primeiro Campeonato Mundial de Canoagem Slalom do Brasil

1993
Início do rafting turístico no rio Paranhana

2018 e 2019
Parque das Laranjeiras volta a receber o Campeonato Pan-Americano

2026
Asteca completa 40 anos de história