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Mel Lisboa transforma Rita Lee em palco íntimo e afetivo em Taquara

Espetáculo acústico em Taquara revisita fases decisivas de Rita Lee e cruza memória, biografia e afeto em uma noite de forte conexão da atriz com o público
(Fotos: André Amaral/Rádio Taquara)

No domingo (12), o Centro de Eventos da Faccat, em Taquara, virou um daqueles lugares onde a memória do rock and roll brasileiro toca no presente sem pedir licença, revisitando algumas de suas páginas mais importantes, mais indomáveis e mais contraculturais. Em formato acústico, com violões e lap steel à serviço do cancioneiro, a atriz Mel Lisboa apresentou “Mel Lisboa canta Rita Lee”, um show que evita a lógica do tributo engessado e ao estilo “cosplay de banda” e aposta numa leitura mais viva, algo de narrativo, da obra da rebeldona Rita Lee Jones.

O espetáculo, trazido pelo Sesc Taquara, tem início na fase mais elétrica e decisiva da artista, especialmente o período da lendária banda Tutti Frutti e o clássico ‘Fruto Proibido’ (1975). Ali, Rita já havia deixado para trás (ou sido deixada) Os Mutantes e encontrado um novo corpo sonoro com o supergrupo liderado pelo guitarrista Luiz Sérgio Carlini.

Dali em diante, o show se abre para a fase em que Rita Lee encontra sua assinatura definitiva ao lado do parceiro musical e romântico Roberto de Carvalho. É quando o rock ganha contornos mais radiofônicos, mas sem perder o veneno. Álbuns como ‘Rita Lee‘ (1979), ‘Saúde‘ (1981) e o essencial ‘Rita Lee e Roberto de Carvalho‘ (1982) aparecem como referência de uma era em que ironia, melodia e provocação são unha e carne. E com enorme apelo popular atemporal, como o público do Vale do Paranhana e arredores provou.

Show revisitou a vasta biblioteca de clássicos de Rita Lee

Mas o que tira o show do lugar confortável da homenagem é a forma como Mel costura essa trajetória com episódios biográficos. Em tom leve, quase de conversa com o público, ela resgata impagáveis desforras de Rita, como o rompimento com a gravadora Philips, episódio narrado em ‘Outra Autobiografia‘, livro autobiográfico da cantora. Na história, Rita relata uma reunião com executivos que tentavam moldar sua imagem e seu repertório, uma engrenagem típica da indústria fonográfica dos anos 1970. O episódio virou símbolo de autonomia artística e resistência ao machismo e controle estético imposto a mulheres no mercado musical.

“Queriam que eu usasse sainha. Mandei todos eles se f* e fui pra casa acender um baseado”, como Mel relembrou o histórico episódio.

Mel interpreta Rita há mais de dez anos

Há também espaço para o afeto. Em um dos momentos mais sensíveis da noite, Mel evoca o pai, o músico gaúcho Bebeto Alves, morto em 2022. Ao usar o violão dele em canções como ‘Ovelha Negra’ e ‘Doce Vampiro’, o show desloca a homenagem de Rita para algo mais pessoal, quase doméstico, como se duas histórias de música brasileira se cruzassem no mesmo instrumento tocado suavemente pela atriz em sua versão “corista de rock”.

O repertório reforça esse mosaico: ‘Jardins da Babilônia’, ‘Desculpe o Auê’, ‘Menino Bonito’, ‘Lança Perfume’ e ‘Pagu’ funcionam menos como sequência de hits e mais como capítulos de uma mesma narrativa: a de uma artista que transitou entre o pop, o rock e a provocação com a mesma naturalidade.

No bis, ‘Flagra’ abriu espaço para o público se aproximar do palco. E foi aí que Mel transmutou o Centro de Eventos da Faccat em uma sala de estar durante uma festa entre amigos, quando a música ainda toca e ninguém arreda o pé. Longe de qualquer problema. Perto de um final feliz.

Final apoteótico