
A economia circular pode deixar de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar uma estratégia de negócios, reduzir custos e criar novas formas de consumo. Essa foi uma das principais discussões do painel “O Novo Valor das Coisas”, realizado às 15h50 durante a quarta edição do Taquara Summit, no Centro de Eventos da Faccat.
O encontro reuniu Evelin Goldmeyer, engenheira ambiental e sócia-consultora sênior da Ecovalor Consultoria em Sustentabilidade; Josemar Demenech, gestor de projetos do Sebrae RS; e Gabriela Dall’Acqua, empreendedora e fundadora da M.DALL’ACQUA. A mediação foi do jornalista e professor Augusto Parada.
Gabriela levou para o debate a experiência de quatro anos à frente de um negócio de moda circular. Segundo ela, uma das dificuldades está em transformar a consciência sobre sustentabilidade em comportamento efetivo de consumo.
Ela citou uma pesquisa realizada para o trabalho de conclusão do MBA, com 185 pessoas, onde 80% dos entrevistados afirmaram ter consciência de que é necessário pensar em sustentabilidade e consideraram a moda circular uma estratégia sustentável para o setor. Na prática, porém, apenas cerca de um terço demonstrava disposição de colocar essa ideia em ação.
Para Gabriela, a mudança começa no momento da compra. Em vez de escolher automaticamente um produto novo, o consumidor pode questionar se existe uma alternativa de segunda mão e se ela atende às suas necessidades.
A empreendedora contou que, antes de abrir seu negócio, trabalhava na indústria e tinha pouco contato com brechós. A dificuldade para encontrar peças com as quais se identificasse fez com que o consumo de segunda mão não fosse uma opção frequente.
Ao deixar a indústria, em 2022, ela decidiu transformar justamente essa dificuldade em oportunidade, criando um negócio de moda circular baseado em curadoria. A proposta também buscou romper com a associação entre brechós e roupas velhas ou sem qualidade.
A discussão mostrou que a economia circular não depende apenas de convencer o consumidor. Para Josemar Demenech, os pequenos negócios também precisam encontrar condições para incorporar práticas de eficiência e sustentabilidade aos seus processos.
O gestor apresentou dados sobre o ambiente empresarial de Taquara e destacou a importância dos pequenos negócios para a economia local. Segundo os números apresentados durante o painel, o município possui cerca de 8,5 mil empresas, das quais aproximadamente 7,6 mil são pequenos negócios.
Demenech citou ainda o programa Brasil Mais Produtivo, desenvolvido pelo Sebrae em parceria com o Senai, como uma possibilidade para empresas que precisam melhorar processos e eficiência energética.
A lógica da economia circular também pode representar uma oportunidade financeira para as empresas. Evelin Goldmeyer destacou que resíduos e sobras de determinados processos produtivos podem se transformar em matéria-prima para outros negócios, reduzindo a necessidade de novas extrações e, ao mesmo tempo, os custos de aquisição.
A mudança também deve alcançar o fim da cadeia produtiva. Em vez de perguntar apenas quanto custa descartar um resíduo, a empresa pode buscar formas de valorizá-lo, seja encaminhando o material para outro processo produtivo, seja fazendo com que ele retorne ao próprio ciclo.
Para Evelin, essa lógica demonstra que sustentabilidade e competitividade não precisam ser tratadas como objetivos separados. A adoção de práticas circulares pode gerar benefícios ambientais e também impactar diretamente os resultados financeiros.
Outro ponto levantado no painel foi o acesso a financiamento. Demenech afirmou que empresas com práticas ambientais, sociais e de governança estruturadas podem encontrar condições mais atrativas em determinadas linhas de crédito e financiamento.
Na moda, Gabriela chamou atenção para o excesso de produção e para a necessidade de pensar no destino dos produtos antes mesmo da compra. Ela citou um dado atribuído ao especialista André Carvalhal segundo o qual apenas um terço das roupas produzidas seria efetivamente consumido.
“Vão fora, mas não existe ‘fora’”, afirmou, ao defender uma mudança na forma como as pessoas encaram o descarte.
O conceito de economia circular também passa pelo reparo. Para Gabriela, uma peça ou produto que apresenta algum problema não precisa necessariamente ser descartado e substituído. Buscar conserto e prolongar sua vida útil também faz parte de uma mudança no padrão de consumo.
A facilidade de acesso a produtos baratos, especialmente no setor de moda, contribui para esse comportamento. A lógica de comprar, usar e descartar pode parecer mais simples, mas aumenta a pressão sobre recursos e sobre os sistemas de resíduos.
O painel também abordou os desafios para transformar a economia circular em uma prática comum. Para Demenech, é preciso que a sustentabilidade deixe de ser apenas uma estratégia empresarial e passe a fazer parte da cultura e do cotidiano das organizações.
Ele destacou ainda que pesquisas apontam uma disposição dos consumidores a pagar mais por produtos com características sustentáveis. O desafio, segundo o gestor, é fazer com que essas alternativas estejam efetivamente disponíveis e sejam facilmente identificadas no mercado.
Evelin, por sua vez, chamou atenção para a responsabilidade compartilhada entre empresas e consumidores. Segundo ela, as empresas precisam oferecer informações transparentes sobre seus produtos, enquanto os consumidores também precisam transformar a preocupação ambiental em comportamento.
Certificações, estudos de pegada de carbono e de pegada hídrica podem ajudar as empresas a comunicar os impactos de seus produtos. Mas, depois da compra, o consumidor também passa a ter responsabilidade sobre o destino e a utilização daquele material, observou a engenheira.
O painel “O Novo Valor das Coisas” integrou a programação da quarta edição do Taquara Summit, realizada no Centro de Eventos das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat). O evento reúne discussões sobre inovação, empreendedorismo, liderança, inteligência artificial, economia, sustentabilidade e desenvolvimento regional.


