Nas férias, as leituras progridem, principalmente quando são envolventes. Estou mergulhado num Stephen King de quase oitocentas páginas, intitulado “A Casa Negra”, coescrito por Peter Straub, outro autor que se dedica ao gênero fantástico. Estava lendo o interessante romance “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón, mas “A Casa Negra” agora tomou o lugar do autor espanhol. No entanto, mantenho paralela a leitura do teórico e intrigante “Crianças e suas vidas passadas”, de Carol Bowman.
O último King que eu havia lido fora o ótimo de contos “Tudo é eventual”, isso em férias já retrasadas. Li muito King quando estava ele em seus começos, e eu era bem mais jovem; impossível esquecer “Cemitério”, “Zona Morta”, “Angústia”, “O Iluminado” e todos aqueles contos de “Sombras da Noite”, por exemplo.
O primeiro motivo que tirou “A Sombra do Vento” da minha preferência foi eu estar morando perto de uma imensa e antiga casa abandonada. Há muito ninguém vivo a habita. Maculada pela falta de recursos, pelos ladrões e, talvez, pelos atrasos de uma burocracia, e mesmo tendo cada vez mais saqueadas suas partes, ela ainda reflete uma beleza ímpar, um requintado camafeu em meio ao denso e veludoso tecido verde-escuro da vegetação que a envolve e, pelo menos, a protege dos muitos que ainda não sabem de sua existência: quantos ousariam nela entrar apenas para terminar de destruí-la?
Eu, porém, ouso invadir suas regiões para admirá-la, para pedir às forças do lugar que abram as camadas do tempo capturado dentro de tais domínios e então a mim se revelem desde o dia em que entraram seus primeiros moradores até a hora final em que a última alma definitivamente a deixou. Como teria sido a vida passando por tal estrutura de dois séculos, esculpida em sonhos? Mas há boatos de coisas estranhas no local ocorridas, coisas que, com certeza, seriam capazes de afastar o mais corajoso dos profanadores.
Enfim, o segundo motivo é que Stephen King escreve pra caramba! E, se o intelectualismo pedante chama o gênero dele de subliteratura, esquece que muitos dos grandes nomes literários, como Dickens, Tolstoi, Flaubert, James, Machado, entre outros, puseram um pezinho no fantástico. Além disso, King leva seus protagonistas como os grandes trágicos shakespearianos, e, elevando ao quadrado o efeito “psicologia + sobrenatural”, inaugurado por Edgar Allan Poe, cria um terror que jorra das profundezas de suas almas e mentes e se confunde com forças que estão ao redor deles, seja na dimensão do simples cotidiano ou noutra, muito além.
Que sensacional conto ou romance comporia King com o material que temos aqui, não lá longe de nós, nos EUA, no estado do Maine, lugar de quase todas as suas histórias, mas aqui pertinho, nas vizinhanças, em nossa cidade?!
Esta postagem foi publicada em 11 de fevereiro de 2011 e está arquivada em Haiml & etc..


