Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 18 de fevereiro de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Canela pau e canela humana

Nossa língua portuguesa, pela sua imensa riqueza de elementos, consegue, em determinados momentos, formar situações bastante bizarras.  Certa vez, por exemplo, alguns brasileiros, em viagem pelos Estados Unidos, desejando que um garçom lhes trouxesse um pouco de canela em pó, apontavam para as próprias canelas e esfregavam os dedos, como se estivessem ralando alguma coisa. Como não sabiam pedir “canela”, em inglês ”(cinnamon” pensavam que seus gestos seriam suficientes para se fazerem entender.
Muito pelo contrário, além de não conseguirem o que desejavam, aquela mímica estranha serviu apenas para confundir e assustar o pobre garçom.  Através deste fato, lembrei-me de que, assim como eles, muitas pessoas também desconhecem que as palavras nem sempre seguem as mesmas regras em todas as línguas. E mesmo considerando nossos próprios vocábulos, como no caso da “canela”, inúmeros outros, apesar de possuírem mesma grafia, possuem significados totalmente diversos.
Pois, para compor este texto, lembrei-me, propositadamente, do termo “cultura”, que pode ter muitas interpretações, dependendo do contexto em que for utilizado. Basta consultar um dicionário e teremos inúmeras situações e definições para essta palavra. Entre diversos aspectos citados, “cultura” pode ser o ato ou efeito de cultivar ou, as várias características humanas relacionadas ao conhecimento e comportamento. Entre todos, no entanto, gosto do conceito filosófico de cultura: “o processo pelo qual o homem, através de sua atividade material e espiritual, consegue modificar a natureza, desenvolvendo a si mesmo, como sujeito social da história.”
Em vista disso e considerando sua veracidade, arriscaria dizer que a cultura é um dos principais fatores para alavancar as sociedades como um todo. De uma maneira geral, como leigos, pensamos na cultura como mero fator de lazer ou de conhecimento. Quase não nos damos conta, no entanto, de que a cultura tem enorme influência em setores como na educação, no comportamento geral de um povo, nos índices de produtividade, na espiritualidade, na segurança, na saúde, na forma de utilização dos meios sócio-econômicos, que, entre tantas outras situações, também importantes, poderiam ilustrar esse breve parágrafo.
Incentivar a cultura vai muito além da simples promoção de  eventos artísticos ou literários. O “fazer cultura”, além da satisfação, deve propiciar o desenvolvimento pessoal, ou seja, algo que ultrapasse o espetáculo em si.
Dessa forma, assim como existem pessoas com muito estudo que têm pouca cultura, outras, quase analfabetas pelos nossos padrões, são fontes inesgotáveis de saber. Vejam, por exemplo, a cultura indígena no tocante à educação e ao respeito com todos os seres vivos. Ou a cultura oriental, no que se refere à responsabilidade e dedicação nas relações profissionais. Nesses dois casos, os valores citados estão incrustados naqueles povos, tornando-se parte integrante de suas características culturais.
Também gosto de pensar na “cultura agrícola”, um tipo especial de cultura, onde uma semente, uma terra fértil e alguns cuidados possibilitam nossa subsistência. Ou seja, devidamente “cultivado”, um pequeno grão de milho pode gerar várias espigas com centenas de grãos cada. É o milagre da natureza, que serve como uma bela simbologia ao que acontece com as pessoas. Ou seja, os bons ensinamentos e a boa educação, direcionados e aplicados em mentes férteis, geram cidadãos educados, produtivos, cientes de seus deveres e, principalmente, questionadores de seus direitos.
Por outro lado, no entanto, deixar a cultura nas mãos de pessoas que não tenham um perfil adequado, é como “jogar pérolas aos porcos”, ou seja, é desperdiçar valores importantes e necessários para o desenvolvimento de nossas comunidades.
Dagoberto Velho

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